quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Rapunzel, por dentro

Rapunzel, jogue-me suas tranças, diz o príncipe. Na verdade, todos dizem, pois sou conhecida agora por essas tranças, por esse lindo cabelo, pelos fios que, trançados, formam essa trama complexa e bela, que encanta, forte, que tudo suporta.

Rapunzel, forte. Carrego nas tranças o príncipe encantado, sonhado. E se ele tiver defeitos, suporto. A imagem que se tem é a de meu sorriso, nenhuma dor, enquanto o príncipe sobe para realizar seus desejos mais escusos nesta torre escura. Mas ninguém sabe a dor que sinto. Ninguém sabe os gritos que abafo, a dor que me transpassa principalmente por não poder expor em meu rosto o sofrimento. Sorrio. Ninguém sabe de nada.

Rapunzel, linda. Infeliz na torre, até que o príncipe chega. Mentira. Nada me agrada tanto quanto a solidão deste cárcere, onde não tenho que fingir felicidade, quando posso ser eu mesma, quando posso ficar deitada no escuro contando as gotas da água que cai pela goteira, sem me preocupar se meu rosto está belo, se minha barriga está encolhida, se meus cabelos estão despenteados, enchendo o quarto todo. Quando ninguém ouve meus gritos, os gritos internos que me despedaçam, os suores que banham meu corpo, os líquidos que escorrem, fétidos, quando não tomo banho porque não tem príncipe nenhum mesmo. E quando ele chega, maldição, lá vou eu vestir a máscara da princesa feliz. Linda.

Rapunzel, menina. Ninguém sabe o peso da velhice em meus ombros, o que esses olhos cansados já viram, o tanto que essa mente pensa e pensou. Ninguém sabe como sou de verdade, que posso ser velha, feia, fedida, pustulenta, gorda, nojenta, ensebada, infeliz. Que posso quebrar a qualquer movimento brusco, e espalhar cacos de cristal negro por toda essa aldeia. Que posso contar minhas rugas e minhas dores.

Rapunzel, princesa. Não sabem da bruxa, da feiticeira, da mal amada, do péssimo caráter. Não sabem das maldições, das armações, dos maus pensamentos. Que me corroem. Que me amarram a essa cama. Não sabem da doença, do fedor, da tristeza, da desilusão, da solidão. Não sabem nada, nada, nada, não sabem nada da dor.

Rapunzel, jogue-me suas tranças.

Coloco de volta a peruca e sorrio, forte, linda, menina, princesa. Feliz.



Foto: Dina Goldstein.

Um comentário:

Johnny disse...

Li. Tive tempo e animo pra isso. Nao sei aonde foram parar ponto de interrogacao e acentos. Espero que entenda mesmo assim. Minhas rugas ja nao conto mais. Dedico-me aos outros, e o que faco de melhor. Um erro. Agora paro pra refletir...receio que esteja decepcionada pela falta de interesse dos seus colegas nos textos que escreve.
Tudo o que escreve e diz eu adoro alem das brincadeiras. Penso que estou fora de forma pra escrever, mas que sentir-me tentado a isso e demais. Nao sou um de seus amigos que escrevem bem (e que voce tanto aprecia, com razao) mas sou alguem...e enxergo o que voce escreve no que voce e, lembrando-me do seu cheiro de cigarro, dos seus olhos cansados e ombros soltos, olhar e voz intensos, imponentes. Tudo tao charmoso, humano, sensivel.
Sua necessidade em dizer que acordou cedo, que esta cansada, o raro toque, a rara permissao...interpreto-os como atos de uma Rapunzel amargurada mas otimista, ainda escrevendo e permitindo suas reflexoes para que as quiser. Bruxa e princesa Ju. Ambas intensas.
Ve-las trabalhar, inspiradas, e muito muito muito esperancoso pra este jovem e cansado rapaz, cheio de amarguras e descrencas.
Estou so em casa e ja abandonando a tentativa de escrever bem(sei o lixo que esta), envolvido em sono e sentimentos. Seguro o sono mais um pouco, e cito-o mais uma vez pra valorizar o pobre texto.
Peco pra que abandone o respeito por mim, que me abrace quando quiser, se quiser. Arranque na unha nem que seja um pouco das minhas trancas...nao corrija este texto, estou simplesmente bebado de sono, de fato, e querendo chorar por nao ter tempo pra nada, por ter saido de casa cedo e criar uma situacao em que me cobro e sou cobrado demais e nao mais relaxo.
Um beijo , princesabruxadequalquerjeitocharmosa. Deste que escreve sem foco e sem animo, apos mais uma decepcao amorosa.
Joao Paulo