domingo, 27 de dezembro de 2009

Já era.

Ô, Deus. Pra variar, aqui estou eu com milhares de coisas pra dizer e pouco tempo. Como 2009 está dando seus últimos suspiros e ninguém está mesmo com muito tempo, vamos fazer pequenas notinhas.

* A viagem a Ubatuba foi uma delícia. Isa, Joerson e Paulinho, vocês são os caras. Uma das viagens mais despretensiosas e divertidas da minha vida. Amei ficar esses dias mais perto da loucura boa de cada um. Volto logo pra tomarmos uma breja. E, assim que a Isa me passar as fotos, coloco algumas aqui. Mais do que colegas de trabalho, amigos queridos. E que seja sempre assim.

* Ah, descabacei o Kazinho na estrada. Eu e ele. Minha primeira viagem de estrada, fui e voltei dirigindo de boa (com a ajuda dos meus mais que foda copilotos). Yeah! É nóis!

* Meu sobrinho é a coisa mais fofa desse mundo e eu amo muito esse pequeno. Muito mesmo!

* Tem gente que nasceu pra ser idiota, e é provável que vá morrer idiota. E não tem jeito, não há o que fazer. O pior é quando você é amigo dessa pessoa e só vê ela fazendo merda e se fodendo. mas não tem o que fazer. Só esperar o momento de falar "Eu não disse?". Mas, como você é amigo, você não fala.

* Descobri que tem mulheres que passam a vida toda num esforço tremendo pra serem sexies e sensuais. E que existe outro tipo de mulher que faz de tudo pra não ser. E, olha, é bem mais difícil, viu? Volto a esse tema no ano que vem.

* Saudades é uma coisa que dá e passa. Porque a gente não nasceu pra ser idiota.

* Meus queridos ex-alunos que foram no Bar do Zé (a grande maioria deles) arrasam. Queridos, fofos, gracinhas. Beijos especiais para Mercadante, Brusco, Ricardinho, Dodoria e Guilherme.

* Amanhã embarco pra Salvador. A maioria dos meus amigos/colegas/conhecidos diz que não vou gostar. Pode ser. Talvez eu preferisse a Suíça. Mas que vou me divertir, ah, se vou! Posso apostar! Porque eu trabalhei o ano inteiro, como uma louca, em dois empregos, aturei tanta merda, cansei tanto e dormi tão pouco que mereço esses 10 dias cozida no mar.

* 2009 foi isso. Oh, céus, eu amaria fazer uma retrospectiva, mas não vai rolar, ok? Coisas boas, claro, coisas ruins, claro, no geral um ano bom, mais pra bom que pra ruim. 2010 vai ser melhor, como todo ano que ainda não chegou.

* Fico me perguntando se eu vou pensar em você na virada, na hora dos fogos, e decidi que não. Porque eu não nasci pra ser idiota, porque o tempo faz sua parte, por mais que demore (CARALHO, COMO DEMORA!), e porque eu quero e mereço coisa nova, oh, gente, diz se não mereço?!?! Que os fogos arrebentem aqui bem dentro e destruam tudo que tem de ruim. Vou fazer de tudo: banho de mar, de sal grosso, vou atrás de umas baianonas porretas na Bahia, jogar búzios, tomar surra de espada de São Jorge, qualquer coisa, mas tirar essa nhaca de mim. Deu, né?

* Dei de presente pra mim mesma 5 livros nesse Natal. Entrei na Cultura e saí feliz. Claro que eu queria ter comprado uns 500. Mas 5 vão bastar. Já li um e vou acabar o segundo entre hoje e amanhã. E na praia, mandar ver no Caim, novo romance do Saramago. Que entra ano, sai ano, mas o Saramago vem comigo (e esse vale a pena!).


Nem vou desejar aquelas coisas todas de todo fim de ano. Foda-se. Daqui a pouco a gente conversa e vê no que deu.

Te vejo no ano que vem!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Férias! Parte I

Então é quase natal. E eu vou ficar sem escrever aqui por mais uns dias. Amanhã desço pra praia com colegas professores. Só quero saber de cervejinha gelada, sol, chegar em casa, tomar banhinho, passar hidratante, sentar na mesa de jogo com o cigarrinho e mais cerveja gelada. E só.

Volto antes do natal e tento escrever, talvez escreva na praia, mas poste só na volta.

Volto, natal, viagem de novo. Deus é pai, dizem.

Último dia de aulas, último dia de trampo na agência, último show da banda do ano. Muito último esse dia. Espero que ainda traga surpresas boas essa última das noites, que pode ser a primeira. Ou que pode ser só mais uma. Vai saber.

Queria falar sobre a sensação de ser rainha, mas vai soar tão pedante que eu desisti. Só posso dizer que me diverti muito essa semana, especialmente nesses últimos dias. Me diverti com as situações acontecendo, caindo na minha cabeça, me surpreendi com as comédias da vida, com a minha sorte inesperada (ganhei um DVD player do nada!), com a minha imagem no espelho, com oportunidades profissionais. Eita semaninha bonitinha da peste. E coroada por férias. Férias gerais, férias totais. Me segura. Ou melhor, segura não, que eu vou!

Daí, perto de tanta coisa boa, o resto parece tão pequeno... tão bobo... claro que tem coisas que eu ainda quero, mas como é bom não ter com o que se preocupar, pelo menos não de fato. E no fim, é tudo lucro. Deu certo? Maravilha! Não deu? Tudo bem, tem tanta coisa legal rolando que dá pra escolher com o que se alegrar.

Já volto, tá? Fiquem bonitinhos aí, e divirtam-se também. Fica bonitinho por aqui, que tá chegando, o tempo passa voando, tá passsando a mais de cem, o que me assusta e me alegra. Mas não tenho presa, não. Tá tudo bão demais da conta!

Até a volta!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Vontade de escrever

Me deu uma vontade imensa de escrever. De novo. Mas escrever regularmente. Ando tão cansada, tão morta com esse fim de ano, tão puta com algumas coisas que estão acontecendo no setor profissional, tão cansada de tudo, tão sem vontade pra nada. Mas me deu vontade de escrever. A correria e o desânimo não deveriam ser motivos pra eu me calar. Eu deveria (e sei que poderia) tirar muitas coisas boas de toda essa fase. De toda essa maré estranha. Das coisas ruins do trabalho. Das coisas estranhas dentro de mim, da minha adolescência tardia que voltou de repente, da minha tarde no Hopi hari e daquilo que eu pensei bem na hora em que o Elevador desceu seus 69 metros em 3 segundos, daquilo que eu gritei na montanha-russa, daquilo que eu pensei ao ver tanta gente feia lá naquele parque, do cansaço que sinto nesses dias, da vontade de chegar em casa, me enfiar debaixo do edredom e ver filmes, das mancadas que dei com pessoas queridas simplesmente porque estava tão cansada que esqueci dos compromissos, da releitura que fiz de A Caverna, romance do genial Saramago, das partidas de jogos com os amigos, das chuvas que têm caído quase todo dia e daquilo que elas me fazem pensar, do som do Ray Lamontagne que eu descobri e no qual me amarrei, e daquilo que suas letras e suas melodias tristes me fazem pensar, da risada do meu sobrinho gordinho e gostoso, da arrumação que fiz no meu quarto, dos meus alunos que estão se formando e partindo pro mundo, das despedidas, do natal, do fim do ano, dos sonhos pro ano que vem. São tantas coisas, tenho tanta vontade, tenho até preguiça.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Banho de sal grosso

É como eu digo: pode vir, que eu aguento! Que aqui bate e volta. Não derruba, não. Pode tontear às vezes, mas derrubar não derruba, que eu sou uma raça ruim da pôrra!

Apresentação da Ópera do Malandro nesse sábado que passou. 3 sessões, uma seguida da outra, 15h, 18h, 21h. Eu tô andando hoje por milagre.

Foi bom. Foi muito bom. Pra mim foi um processo muito difícil, desde o começo. Muito mesmo. Uma mistura de vários sentimentos, mas o de querer fazer parte sempre superou todos os outros. Diversas vezes pensei em abandonar o barco, achei que não ia aguentar. Mas sempre aguentei. E valeu a pena, porque foi muito bonito.

Mas depois eu comento mais do geral. Quero falar da zica. Da urucubaca. Do exu trancarrua (que a nova reforma ortográfica deixou ainda mais feio).

Sessão das 15h: 2 apagões no teatro, no meio da peça. Na primeira cena, pra ser mais exata. Sumiu tudo, luz, som, apagou geral. Eu, heim?

Sessão das 18h: meu microfone head set falha na minha música com Teresinha. Puta, pego o reserva de punho. No meu solo, o reserva de punho também morre. Mas eu sou ruinha, sou taurina, sou brasileira e não desisto nunca: canto sem microfone e que se foda. Claro que fiquei puta, claro que depois dei piti, mas não ia deixar essa merda de zica impedir as pessoas de me ouvirem. Pôrra...

Sessão das 21h: o salto da minha bota quebra em cena. No meio da cena. Que se foda: arranco a bota em cena e continuo. Tinha por milagre um sapato vermelho na mala lá no camarim, troquei e acabei a peça sem ser descalça.

Agora, fala pra mim: que urucubaca é essa? Segundo alguns amigos, é o mal que eu desejo pras pessoas que volta pra mim. De boa? Eu nem sou tão ruim assim. Só falo o que eu penso e o que eu sinto, mesmo que não seja bonito. E não fico nessa onda desejando o mal dos outros... de vez em quando passa pela minha cabeça, mas é só.

Agora, se for castigo, ou se for mau-olhado, ou se for inveja, azar, urucubaca, zica, o que for, meu bem, PODE VIR. Vem quente que eu fervo, meu amor. Ah, eu fervo. Tenho medo, não.

Bate aqui e volta, coisa ruim!!!

Pull me under, I`m not afraid! (Dream Theater)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Inaugurando dezembro, o último mês...

Sabe quando você olha mas não pode tocar? Mas toca sem poder, sem dever, e queria poder pegar? Ou toca de leve querendo tocar forte, ou toca forte, como se fosse normal, como se nem percebesse, como se não se importasse, quando na verdade você queria tocar muito de leve, deslizar os dedos, escorrer, derreter a mão? Sabe quando você olha de perto e o seu coração dispara dizendo “eu quero”? E você ri de si mesmo, pra não gritar? Sua boca se contorce num sorriso de desespero misturado com alegria misturada com dor misturada com desejo misturado com aflição misturada com satisfação misturada com ansiedade? E as luzes todas parecem estar contra você, e você não sabe mais o que fazer pra apagar da sua testa aquilo que está escrito em néon (mas ninguém parece ver)? E as músicas que você ouve alto calam fundo no seu peito, comprimem, apertam, machucam de um jeito bom e ruim? E os movimentos do outro te matam, e os seus movimentos te matam, você tem vontade de sair correndo e esconder a cara de idiota na privada mas fica ali parada, sorrindo feito besta. Olhando. Viajando. Falando sozinha, procurando desculpas na sua mente, procurando explicações que sejam criveis pro caso dos outros perguntarem no que você está pensando, por que está rindo. Sabe quando tudo queima, gela, o coração acelera, você pensa milhares de palavras por milissegundo, você aperta as mãos bem forte pra evitar fazer aquilo que você quer mas não pode ainda?

Sabe?

O nome disso é vontade. E é ruim, mas é bom demais.


Semaninha corrida da pôrra. Violão e voz, peça, flamenco, ensaios, aniversário de sobrinho, provas finais, despedidas. Espero que semana que vem eu respire melhor.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Hysteria/Obsessão

Pois é. Tá foda. Eu não sei se tenho vontade de morrer ou de matar. Manhãzinha complicada no trabalho. Pôrra, eu tenho as minhas convicções, as minhas crenças, a minha visão de mundo e da minha profissão. Mas tudo bem, tudo bem.

Fim de ano é assim mesmo, sempre digo. Nunca tome uma decisão importante em fim de ano. Eu, pelo menos, não posso. Porque ando estressada, irritadinha no último, cansada, morta, podre. Mas tudo bem, tudo bem. Toca em frente.

Pra ajudar, sabe obsessão? Pois é. Obsessão. Aquilo que não sai da sua cabeça? Então. É assim. E obsessão só tem duas curas: ou a gente resolve logo e mata, ou desencana sem resolver. Mas enquanto isso, é difícil, ai como é difícil.

Então ouço Hysteria, da galera do Muse, e grito no carro, dirigindo. Então vejo o clipe e tenho vontade de fazer igualzinho ao cara. Medo de mim.




it's bugging me, grating me
and twisting me around
yeah I'm endlessly caving in
and turning inside out

'cause I want it now
I want it now
give me your heart and your soul
and I'm breaking out
I'm breaking out
last chance to lose control

yeah it's holding me, morphing me
and forcing me to strive
to be endlessly cold within
and dreaming I'm alive

'cause I want it now
I want it now
give me your heart and your soul
I'm not breaking down
I'm breaking out
last chance to lose control

and I want you now
I want you now
I feel my heart implode
and I'm breaking out
escaping now
feeling my faith erode

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Hominho

Tem dias que não dá: eu realmente não to a fim de papo mulherzinha, não consigo nem ouvir voz de mulher. Que dirá voz de mulher conversando papo mulherzinha. Ah, dá um tempo.

Eu ando estressada mesmo, faz um tempinho, e eu sabia que essa semana ia ser foda. Segunda tenho que entregar todas as notas, e ainda tem 12 pacotes de exercícios pra corrigir até lá (e depois somar todas as notas e fechar as médias, fora as faltas). E eu não tenho mais minhas tardes livres, nem aquela uminha tardezinha livre que eu tinha. Então desde domingo de noite eu já tava de bode prevendo essa semana de merda. E realmente tá foda. Ando me arrastando pelos corredores do colégio, pela vida. Implorando por férias. Que ainda vão demorar 23 dias, oh, meu amigo calendário. Daí vem stress. Eu acordo de mau humor, depois melhoro, daí vem uma cambada de boçais e estraga tudo. Por dois motivos. Porque eles são meio boçais, mesmo, mas também porque eu exagero. Over. Reacting. Total. Nem era pra tanto.

Daí que fodeu meu dia. Chego em casa e tenho míseros 20 minutos pra comer, fumar e descansar, antes de encarar a segunda jornada do dia. Engulo a comida, tentando ver TV, mas minha mãe quer conversar, porque ela ficou sozinha em casa a manhã toda e tá carente, doida pra falar, perguntar como foi minha manhã e falar de coisas absolutamente sem importância nesse momento. Eu só quero silêncio e paz. Posso? Não, sou grossa. E 5 minutos no sofá me deixam pedindo por 5 horas no sofá, canal do Telecine aberto, assistir a qualquer coisa e dormir, dormir. Mas o lazarento do relógio me mostra que já é hora de ir embora. Há humor que suporte??

Daí não dá. Ando mau humorada, mesmo, de bico, cara de cu. Que eu sei fazer uma cara de cu como ninguém. E nem é culpa dos outros, claro que não. Mas tô de bode, então não vou ficar fingindo cara de feliz. Não me vem com bagunça, não me vem falar durante o filme! Não me vem com papo mulherzinha, mulherzinha besta e sonhadora, inocente e criança; acorda, Alice!

Nessas horas, ah, nessas horas... sou meio homem com H. Não tenho paciência pra você, minha flor. Te vira. Mas não vem falar comigo, não. Não vem me contar, que tem dias que eu até consigo forçar um sorriso e tirar algo idiota da minha mente pra dizer, algo que você entenda. Mas hoje não vale o esforço. Tô chata. Hoje sou homem vendo futebol: do not disturb.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 8 - Capítulo 1 - O fim chegando cedo




“Mesmo se as estrelas começassem a cair e a luz queimasse tudo ao redor e fosse o fim chegando cedo, você visse nosso corpo em chamas.”

Claro que eu já tinha ouvido Legião Urbana. Todo mundo já ouviu, mesmo que não goste. Acontece que eu nunca achei que fosse possível. Mas agora tudo parece extremamente possível.

O mundo acaba amanhã. A galera da Nasa soltou um comunicado oficialíssimo e importantíssimo. Não vai dar tempo de salvar nada. A colisão com a Terra é inevitável. Terráqueos, preparem-se: o mundo que vocês conhecem vai acabar. Não tem nenhum super-herói de filme pra nos salvar. Amanhã, a essa hora, morreremos todos.

Eu sempre imaginei essa situação, amava aquele som do Moska que dizia “Meu amor, o que você faria se só te restasse um dia? Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria”. Pois é. Agora é real. Mas não parece.

Tô calma. Acho que ainda não caiu direito a ficha. Anyway, essa ficha tem 24 horinhas pra cair. E eu tenho muita, muita coisa pra fazer.

Vamos à primeira delas...




Acompanhe a continuação dessa história amanhã, aqui, no blog da Lu.

domingo, 22 de novembro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 7, Capítulo Final




O início dessa história você encontra aqui!


Ana Clara olha pela janela do belíssimo apartamento. A paisagem é absurdamente maravilhosa, mas sempre tem um tom triste. A tristeza de seu interior refletida nas ruas de Paris. Seu olhar se desvia para seus sapatos, lindos, chiques, caros. Mas nem mesmo eles podem distrair a dor que sente e sempre sentiu dentro de si.


Caminhando de volta para a cozinha, Ana Clara retira do fogo a chaleira e prepara o chá. Leva-o para a farta mesa de café-da-manhã, com bolos, sucos, café, pães e frutas. Arruma o jornal de Pierre no lugar onde ele sempre se senta à mesa, sua cadeira cativa. Em breve as crianças estarão também aqui, Beatriz e Lucas, filhos de Pierre, filhos de Pierre e Mariana. Todos tomarão seu café e partirão para suas vidas, para mais um dia de suas vidas. As crianças na escola, Pierre no escritório...


Mariana... Mariana em sua loja. Mariana rodeada por seus empregados, por suas clientes grã-finas, ostentando suas fortunas em jóias, roupas e sapatos, e prontas a gastar sempre mais, a repassar o dinheiro para o bolso de Mariana, que nunca fez nada para merecê-lo, nem mesmo montar a própria loja. Pierre, apaixonado, sempre deu a ela tudo o que ela quis.


Ana Clara lembra-se do fatídico dia da morte de seu amado pai. Lembra-se de todas as revelações, da carta da madrasta Rosa, da sensação ao saber que Mariana não era nada sua, nada, nada, nada, filha de outra mãe e de outro pai. Não era filha de seu pai, de seu sofrido pai, de seu enganado pai. Fazia anos, já. Três anos? Quatro anos? Por que parecia não fazer diferença? O convite de Mariana, na época, parecera um insulto. "E tem mais...", ela dissera. "Gostaria que você viesse comigo para Paris, gostaria que viesse morar comigo, com Pierre, com minha família, pois somos a única família que você tem, e eu não quero perdê-la". Sim, na época parecera absurdo. Aquela mulher, que não era nada sua. Como seria viver em sua casa, na casa que deveria ser sua, com o marido que deveria ser seu, com os filhos e a vida que deveriam ser seus... Seria humilhação demais.


Mas para Ana Clara nada nunca era humilhação demais. Estava sem emprego e sem forças para procurar um outro. Estava sem forças para pensar, e se deixara levar por Mariana, embarcara no avião e fora para Paris. E lá, há anos, cuidava da vida de Mariana, da vida de Pierre, da vida dos filhos de Mariana, da casa de Mariana. A casa que não era sua. Os filhos que não eram seus. O marido que não era seu. A vida que não era sua. Mas que vida teria, que outra vida poderia ter? O que mais importava?


As crianças começaram a fazer a algazarra matinal de costume. Ana ouviu o barulho de Pierre saindo do banheiro, e o cheiro de seu creme de barbear penetrou-lhe as narinas. Mascando seu chiclete mentolado, encaminhou-se para o lavabo a fim de lavar as mãos de maneira que Mariana não percebesse o cheiro de cigarro nelas.
Segunda-feira, mais uma história para você. Aqui mesmo!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Correrias

Minha vida anda uma correria sem fim. Fim de ano, sempre a mesma coisa...

Escola no fim do bimestre, caralhadas de coisas pra corrigir, a agência bombando, ensaios de matar do Flamenco, da Ópera do Malandro, da banda, shows marcados com a banda, de violão e voz, apresentação de Flamenco, da Ópera, figurinos, e eu no meio disso tudo, desejando que chegue logo o dia 28 de dezembro pra eu sumir. Tá, dia 18 já vai ser bom: férias e só a correria boa com as coisas da viagem.

Pensei em vir aqui escrever muitas coisas nesses dias. Ia escrever uma historinha inventada que contava o que acontece quando a mocinha diz para o mocinho aquilo que ela quer dizer; depois desisti. Ia escrever uma receita para não acreditar no amor; depois desisti. Ia escrever para o GuessWho, que morreu (né, Du?); desisti também.

Tô é com medo de escrever qualquer coisa e me arrepender. Então fico quietinha.

Hoje tem show.

Hum.

Tá. Tchau.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Carpe Diem

Taí. Os árcades dão no saco às vezes, mas hoje o Tomás Antônio Gonzaga gritou aqui no meu ouvido... Taí um cara que sabia passar uma boa lábia na mulher que embaçava... Tá, uma visão mega simplista do Arcadismo, mas no fundo, ah, no fundo é isso aí.

Cada um tem a Marília que merece, Dirceu...



Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
gozemos do prazer de sãos Amores.
Sobre as nossas cabeças,
sem que o possam deter, o tempo corre;
e para nós o tempo, que se passa,
também, Marília, morre.

Com os anos, Marília, o gosto falta,
e se entorpece o corpo já cansado;
triste o velho cordeiro está deitado,
e o leve filho, sempre alegre, salta.
A mesma formosura
é dote, que só goza a mocidade:
rugam-se as faces, o cabelo alveja,
mal chega a longa idade.

Que havemos de esperar, Marília bela?
Que vão passando os florescentes dias?
As glórias que vêm tarde já vêm frias;
e pode enfim mudar-se a nossa estrela.
Ah! não, minha Marília,
aproveite-se o tempo, antes que faça
o estrago de roubar ao corpo as forças
e ao semblante a graça.

Ai, ai... Que havemos de esperar? Que vão passando os florescentes dias?

Como eu disse, acho que pela primeira vez entendi esses caras.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ao GuessWho

GuessWho:

Eu ainda acho que você é algum amigo engraçadinho meu. Anyway, desde que não seja um serial killer ou algum freak perigoso, eu topo o jogo, sim. Adoro um jogo, você deve saber.

O sinal está aqui, uma vez que não tenho como te contatar, se você só envia torpedos pela internet...

Sem maluquices, heim??

Cordiais saudações,

da doce Juliana.

(Doce??? Você deve estar brincando... Na real, arde, mas é doce.)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Surpresa!

There`s a centre of gravity/ Brings you near to me/ Nearer all the time... (Aqualung).

E eu aqui dando risada e ganhando o dia por uma coisa tão idiota.

Por favor: férias urgentemente!!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 6 - Capítulo 3

O início dessa história pouco doida você confere aqui.

Leu?? Certeza?? Senão não vai entender nada!!

Agora leia o Capítulo 3:



Betina sentia seus pés em contato com algo viscoso, gelado. Tentava colocar os fatos em ordem, mas havia desistido há muito tempo. Não, seus neurônios não haviam sido treinados para esse tipo de trabalho forçado.

O túnel parecia não ter fim. O macaco parecia não sentir o gel a seus pés. O mundo parecia estar todo errado.

Maldita hora aquela em que decidira dormir na casa da avó... Podia ter ido ao casamento de Raul, mas sabia que não aguentaria ver o ex-namorado casando com aquela sonsa da Vitória. Então havia decidido passar o fim de semana o mais longe possível, o mais longe que sua cabeça conseguia conceber: a casa da avó, no interior. Lá, nada de “pela estrada afora eu vou bem sozinha”. Nada de doces para a vovozinha. Aliás, nada de vovozinha: a avó de Betina era bem modernete, e logo apresentou seu namorado: Ed, o velhinho que cheirava a leite de rosas. Contraste engraçado com o cheiro de charutos da avó...

Maldita hora em que Betina resolveu que poderia ser interessante espiar a avó e Ed trepando, pelo buraco da fechadura... Se não tivesse espiado, ah, se não tivesse espiado...

A lembrança dos palhaços do Éden atrás dela a fez tremer. Já tinha ouvido falar deles. Só não os tinha ligado à situação. Nunca os teria ligado àquela situação...

A mão do macaco forte, peludo e cheiroso apertou a sua, despertando-a dos devaneios loiros.

- Chegamos, doce de coco.

Uma porta se abriu e Betina pôde vislumbrar o vulto de cinco pessoas sentadas a uma mesa. Não conseguia identificá-las. Não conseguia pensar mais nada, a não ser na vontade imensa que sentia de tirar aquele maldito sutiã pontudo.

Nas paredes azuis do recinto, havia cinco quadros.

Betina não conhecia nenhuma das pessoas ali retratadas. Mas eram personalidades muito conhecidas. Nada mais nada menos do que Tim Burton, David Lynch, Edward Munch, Edgar Allan Poe e Stephen King. Mas seria muito exigir de Betina o conhecimento de tais figuras.

Ouviu a voz do macaco atrás dela.

- Senhores, enfim chegamos. Apresento-lhes a doce Betina.

Sobre a mesa, embaixo de um foco de luz, havia alguns DVDs, livros, fotos. Todos eram obras dos mestres retratados nas paredes. Além de tais objetos, Betina vislumbrou um enorme saco de estopa escrito SAL.



Oh, céus! Tem coragem de continuar?? Eu acho que vale a pena... amanhã, entre aqui e mande bala!


terça-feira, 10 de novembro de 2009

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Praia

Eu quero e não quero. Eu quero muito que chegue logo essa viagem de férias, que chegue logo dia 28 de dezembro, que chegue logo a hora de colocar os pés no avião, que chegue logo a hora de colocar os pés no mar, na areia, que chegue logo a hora daquela caipirinha na praia, daquela cervejinha de fim de tarde, com o corpo queimado de sol, cheirando a hidratante, o cabelo molhado caindo em cachos naturais e tudo bem, os pés numa rasteirinha, a boca doendo de tanto dar risada, a oferenda pra Iemanjá, os pedidos de ano novo, os telefonemas e torpedos, os fogos na praia, os colares de Salvador, a onda batendo forte nas minhas costas e o medo que eu tenho e sempre tive de mar, as conversas com amigos, as pedras, a areia, a água. Eu quero muito. Quero recomeçar, quero descansar, quero me esquecer, quero me perder, me encontrar, ficar em paz. Quero e não quero. E quero ainda mais, por essa parte louca em mim que não quer. Quero com todas as forças pra ver se venço essa doida dentro de mim que não quer, que quer mas não quer. Quero muito mesmo.

E quero também voltar. Pra começar tudo de novo. Pra começar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Dizendo

Eu descobri meio que sem querer essa banda, Aqualung. E adorei. Daí que tem essa música linda que diz exatamente tudo o que eu queria dizer e não posso. Não posso por uma série de razões. Mas se as palavras não forem minhas, então tudo bem. Então não são minhas, OK? São da galera do Aqualung.

A kiss is not just a kiss
A smile is more than a smile
Maybe we get together, maybe forever
Maybe just for a while

I've seen the look in your eyes
I've seen you wondering why
There's a center of gravity
Bring you near to me
Nearer all the time

And I'm petrified, I'm hypnotised
Every time you walk by
And I can't get you out of my mind
(...)

Ouça aqui: (Can't get you out of my mind – Aqualung).

(suspiros de idiota)

Folhetim Vagabundo - História 5 - Capítulo 4 - Consciência

Essa história começou aqui, ó!

Agora, leia o capítulo 4:


Sentindo o coração palpitar, Helena pensava: “Preciso descobrir algo sobre essa história toda...”. Criando coragem, disse:

- Interessante essa sua tatoo... Tem algum significado?

Arregalando os olhos, Marcelo respondeu:

- Tá louca, Leninha? Ih, hoje você tá muito estranha... desde manhã, nem me cumprimentou direito no elevador... Bom, tenho que atacar, depois a gente se fala, gata.

Ao ouvir essas palavras, e sentir o apertão que a mão do saxofonista dava em sua bunda, Helena ficou desconcertada. Enquanto observava o músico voltar ao palco, o chão se abria a seus pés. Que foi isso? Que intimidade era essa? Leninha? Gata?

Não teve tempo para terminar suas perguntas. Uma música envolvente penetrava em seus ouvidos, esquentando o corpo todo. A visão de Helena ficou turva, o mundo foi rodando e ela precisou se sentar. Nada mais parecia fazer sentido, e então tudo começava a fazer sentido. A música preenchia tudo. Quase tudo. Em sua mente, ainda havia um espaço para tentar pensar. A música viria em breve, era preciso ser rápida, antes que apagasse todo e qualquer vestígio de sanidade, de racionalidade.

Leninha... aquela intimidade com o saxofonista... Catarina Sampaio, a vítima... Helena sentira que a conhecia de algum lugar, mas não conseguira encaixar direito de onde... encontros de elevador não explicavam aquela sensação forte de familiaridade... A música não parava, estava invadindo cada vez mais todos os sentidos e todos os espaços de Helena. “Preciso fazer com que algo faça sentido logo, ou vou apagar”. E, vagarosamente, as coisas começavam a fazer sentido, mas um sentido estranho. Helena começou a entender o porquê da sensação de tédio em sua vida, o porquê do cansaço extremo que sentia quando acordava 6h15 da manhã e o porquê de ficar apertando o botão de soneca. O porquê da sensação de semivida. O porquê da ironia de Seu Jorge, o porteiro, perguntando se Marcelo estava a incomodando com o barulho... o barulho era dela! Eram seus gritos e gemidos, vindos do apartamento do saxofonista, não a música! Não, não podia pensar na música, precisava se concentrar e entender essa bagunça toda. Frases, sensações e imagens dessa segunda-feira estranha vinham à sua mente e adquiriam novo significado. A sensação de semivida... Adorava apontar seus lápis com canivete, sentia até alguma espécie de prazer com aquilo... A vítima, que não parecia estar com medo, fumando um cigarro atrás do outro... o rosto de Marcelo no retrato falado...

O rosto de Marcelo de madrugada, muitas madrugadas, lençóis, travesseiros, chuveiro, o saxofone no canto do quarto, o relógio marcando 4 horas da manhã. Por que Helena não se lembrava de todas essas coisas? Por que só agora, com essa música, a verdade veio à tona?

Uma nota grave, profundamente grave, fez com que Helena engolisse em seco. Entendeu tudo em uma fração de segundos. Ela tinha uma segunda vida. De que nem ela mesma sabia. Uma vida de madrugada, diferente da vida de durante o dia. Uma vida inconsciente. Marcelo só conhecia a Leninha, essa da noite. Mas e ela? Quem ela conhecia de fato? Quem era ela de fato? O que ela tinha a ver com Catarina, com o estupro, com toda essa história?

Sentiu que ia desmaiar. Mas era somente a música de Marcelo arrastando seus últimos fios de consciência, levando embora Helena e deixando Leninha em seu lugar.

Sorrindo, Leninha retira da bolsa um cigarro e o acende, observando a pequena estrela tatuada no dorso de sua própria mão, que segurava o isqueiro.


O fim de tudo isso? Amanhã, no blog do Du.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

E então eu estou dirigindo pela rua e juro que te vejo no banco do motorista no carro ao lado. Vou atrás, mas não é você. E então eu me pergunto o que estou querendo da vida, se eu sei o que estou fazendo, se eu sei no que isso pode dar, se eu sei o quanto posso me ferrar, te ferrar. Se eu sei o tamanho dessa loucura dentro da minha cabeça.

E então eu me lembro dos seus olhos dentro dos meus e eu derreto. Lembro do formato deles, tão bonito. Lembro da paz que me dá, lembro do cheiro de amaciante. E lembro que devo estar ficando louca. É, talvez eu esteja.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sonhos sonhos são...

Eu ando mesmo muito estranha. Às vezes parece que tenho 70 anos. Outras vezes, me vejo com 17. Eita.

Tive o sonho mais estranho. Estranho mesmo. Porque quando a gente sonha com uma pessoa que já sabia que estava na nossa cabeça, não é estranho. No fundo, o que a gente sonha já está lá em algum lugar no cantinho da nossa mente, o tio Freud já explicou isso muito bem, há mais de 100 anos atrás. Então sonhar com alguém que você sempre soube que queria é normal. O que assusta é quando você sonha com o inusitado. Com alguém pra quem você nunca tinha olhado diferente. Oh, céus, é assustador quando aquilo que desejamos e não sabemos vem à tona.

Socorro. Acho que estou pirando. Todos os meus outros sonhos estranhos assim pela vida deram ou quase deram em merda. Tenho um histórico desses sonhos. E daí eu meto isso na cabeça e pronto... fudeu. Não tinha olhado nunca pra pessoa, nem tinha tomado conhecimento. Pois é só sonhar que estou perdida.

E sonhei esta noite. Ou seja, hoje é o dia da descoberta. Medo. Medinho.

Folhetim Vagabundo - História 4 - capítulo 2

O início de mais uma história maluca você encontra aqui, ó! Clique!

Leu?? Então vamos à continuação...




Sábado, 10h54.

Um sol infernal.

Júlia Palermo vê chegar um carro preto, que ela sabia ser de Ricardo de São Thiago. Ele desce e acende um cigarro. Nenhuma palavra é pronunciada. Na segunda tragada de Ricardo, Mariana Franco aparece dobrando a esquina. Com um cumprimento de cabeça, os três se saúdam. Nenhum tira seus óculos escuros: Mariana, porque não consegue suportar a luz do sol depois da noite de ontem; Ricardo, porque precisa estar lindo; Júlia, porque suas olheiras estão enormes e ela não quer que tirem sarro de sua maquiagem que borrou (também, com esse sol dos diabos...). Mariana não fuma, por causa da ressaca.

Luana de Souza chega de carona com seu pai (pois sua mãe bailou até na noite passada e não se levantou ainda). Desce do carro sem óculos escuros, e os colegas podem ver suas mil piscadas por minuto. A primeira frase é pronunciada por Júlia Palermo.

- Vamos entrar logo?
- Não vamos esperar pela companheira Júlia Hilal?
- Ah, Ricardo, vamos entrar logo, quero sentar, estou cansada! E você sabe como ela é, vai chegar atrasada, mesmo... não é justo fazer a gente esperar no sol...
- Calma, calma, gente. Acho que é ela.

O barulho do carro de Júlia Hilal se faz ouvir. 10h58. Ela desce esbaforida, carregando a bolsa gigantesca a tiracolo.

- Desculpa, gente. Vamos?
- E a Pedra?
- Ah, ela ligou e disse que está fora do projeto. Muita correria com o CD.

Os outros já esperavam por isso. Nos últimos tempos, Pedra estava mesmo ficando mais doida do que já era. Bom, melhor mesmo ela direcionar suas forças para seus outros projetos. Que o que estava para se realizar dentro do grande galpão iria exigir toda a atenção e concentração dos membros ali presentes.

Ricardo e Júlia Palermo abrem com certo esforço as pesadas portas de ferro do galpão. Finalmente fora do sol, começam a tirar seus óculos escuros. O cheiro do desinfetante provoca náuseas em Mariana, mas ela segura a onda.

Os cinco líderes intelectuais fazem um círculo, em pé. Ricardo pergunta:

- Trouxeram?

Todos acenam com a cabeça, vagarosamente, apreensivamente.

10h59. Hora de começar.

Um a um, os líderes saem de seu lugar, vão até o centro do círculo e depositam cada um um objeto. Depois voltam para onde estavam.

Júlia Hilal deixa no chão três pacotes de Yakult, cada um com 6 frascos.
Júlia Palermo deposita uma sacola que contém uma manga podre, um dente de leite e a primeira página da Bíblia, rasgada.
Luana de Souza leva ao centro do círculo um estojo contendo instrumentos de dentista.
Mariana Franco coloca no chão um saco contendo penas de pombas.
Ricardo de São Thiago, finalmente, vai ao centro e lá deposita uma luxuosa edição do Kama Sutra.

11h01. Todos se entreolham. Hora de começar.


Começar o quê? Descubra amanhã, aqui.

sábado, 24 de outubro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 3, capítulo 6 - O Final, o Começo, O Recomeço.

O começo dessa história você encontra aqui, ó.


Ano terráqueo: 1980

Fogo. De seus dedos longos, o fogo se produz. Basta um gesto de Lúcifer para que o fogo surja por entre seus dedos brancos, subindo por suas unhas negras e brilhantes. Ele acende um cigarro. Mais um, dentre tantos, que não pode ser desfrutado como se deve. Impossível fumar como um mortal terráqueo. Nada se compara ao prazer humano de encher os pulmões de fumaça. Ele não tem pulmões. Assim não tem a mínima graça. Quantos cigarros mais seriam desperdiçados? Quanto tempo mais demoraria para convencer esse velho barbudo démodé de seus planos? Quanto tempo mais?

- Pensando bem, caro Lúcifer, não acho que essa seja uma boa ideia...

Deus estava preocupado em utilizar os argumentos certos para conseguir demover Lúcifer de seus planos. Sabia que, no fundo, o que o tinhoso queria era destruir o mundo que Ele criara, com tanto esforço, em 7 dias, e que vinha mantendo, a duras penas, há tantos anos. O grande sonho de Lúcifer sempre fora derrubar tudo e começar de novo, do seu jeito. Para mostrar que ele seria mais capaz. Mas dar o braço a torcer agora não parecia uma boa ideia. E Deus sabia que essa conversinha de trocar de lugar era só uma desculpa do Tranca Rua pra conseguir finalmente provar que ele era melhor. Era, na verdade, um grande truque. Para Lúcifer, era impossível destruir o mundo lá de baixo, do inferno. Seria preciso ter acesso à Sala de Controle, no céu, guardada pelos anjos virginianos, tão organizados e obedientes. E isso só poderia ser feito por Deus. Ele já pensara várias vezes em apertar o grande botão vermelho de emergência e começar tudo de novo. Mas isso seria mostrar a bunda ao inimigo, assumir que errara, que não fora competente. Por isso há tantos anos, segurava a barra e ia tocando o mundo como estava, mesmo. Havia o plano de destruir tudo finalmente em 2012, então seria preciso esperar até lá.

- Pense bem, meu querido, pense com a cabeça, Deus. Você poderia se divertir demais lá embaixo, só no joystick, comandando as forças do Mal. Eu é que iria penar um bocado por aqui, com esse bando de anjo chato, tendo que fazer o Bem. Mas eu prometo fazer bonito. Só por uns tempos...

Maldito velho encardido, não vai aceitar a proposta jamais. Será que Ele sabe que tudo o que eu quero é finalmente apertar o botão de emergência? Ter acesso àquela maldita sala e acabar com esse joguinho idiota? Vai demorar muito pra eu ter que apresentar o outro plano?

Mas Deus sabia, sim. Pô, ele era sagaz! Apesar de ser um velho, era muito inteligente. Afinal, criara o mundo, a Física Quântica, a Química Orgânica, as equações do segundo grau e a mente das mulheres. Pra Ele, entender as motivações de Lúcifer era fichinha. Difícil seria convencê-lo de mudar de ideia sem provocar uma guerra.

- Lu, veja bem, será que não há outra maneira de nos divertirmos? Sei lá, podemos pensar em outra peste, outra guerra, trazer logo o Michael Jackson pra cá, ao invés de só daqui a 30 anos, ou mandar o Elvis de volta, tem um monte de gente que acha que ele não morreu, mesmo...
- Outra guerra? Os planetas já têm guerras suficientes. Elvis faz muito sucesso por aqui, e ele ainda tem duas turnês pra completar lá no inferno, assim que seus anjos pararem de babar ovo nele e finalmente aprenderem as coreôs. Aliás, nunca vi anjos mais burros!! Meus servos já sabem todos os passos de todas as músicas dele de cor e salteado. Eu bem que falei pra você que aquela academia na qual você mandou eles fazerem estágio era uma merda... Também, né? Brasil??? Campinas??? Tenha a maldita paciência...
- Pois é, assumo o erro. Mas não se preocupe, em 2012 aquela academia vai ter um fim especial. Estou planejando com calma a destruição da...
- Ok, então eu tenho uma nova proposta. Algo de que podemos brincar até 2012, quando você finalmente vai reconhecer seu erro e se redimir.

Lúcifer não cabia em si de contentamento. Sabia que Deus não iria aceitar sua primeira ideia assim de cara. Por isso havia pensado no plano B. Afinal, ele não era tão burro assim. Pô, ele era sagaz! Ora, ele criara todas as doenças, o acorde trítono e estruturara toda a complexa engenharia da inveja, pra colocar no coração dos humanos. Ele sabia que Deus estava tão desesperado pra demovê-lo da ideia da troca que aceitaria sua outra solução sem pensar muito.

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Ano terráqueo: 2008

- Não, filha, esse não! Esse não realça seus peitos! Coloca esse aqui, ó! Melhor: eu tenho uma camisa ma-ra-vi-lho-as aqui que vai ficar linda em você. Deixa ver onde está... ah, aqui! Coloca lá no banheiro. Depois vem me mostrar.

Enquanto Maura Rúbia, com aquele sorriso idiota, corria para o banheiro para seguir suas instruções, Jacintha pensava. Pois é, parecia que aquela seria mesmo a fêmea ideal para seu filhote. Principalmente porque ela acatava todas as sugestões da sogrinha. Seria muito fácil continuar a controlar a vida de Matheus Ricardo, pois ela controlaria também a vida de Maura Rúbia.

- Deixa eu ver. Isso, linda! Agora passa esse perfume aqui. Comprei na Sacks. Chegou ontem. Maravilhoso, não é? Olha que buquê!! Passa esse óleo com glitter na perna, vai ficar show. Isso. Passa um pouco no meio dos peitos também. Pode passar. Isso! Não, esse batom, não! Usa esse outro aqui, meu, é novo. Isso, combina mais com a sua pele. E solta esse cabelo. Deixa bem bonito. Nossa, o filhote vai ficar doido! Tá usando a calcinha fio-dental que eu te dei? Hahahaha, ele vai enlouquecer! O filhote adora uma bunda como a sua. Ele nunca gostou muito das magrelas, sabe? Mas também não gosta das gordas. Maura, Maura, não vai descuidar do regime, heim?? Segura a boca e pique no lugar!! Agora vai. Tá linda.

Enquanto observava a tonta sair pela porta de seu quarto, Jacintha lebrava-se do nascimento de Matheus Ricardo. Fora mesmo um dia especial. Ela sofrera muito com as dores, mas se lembra até hoje da luz. Todos disseram que eram os remédios, mas ela vira a imensa luz branca que saíra de sua vagina quando o filhote viera ao mundo. Sabia que ele era especial, muito especial. Pena que tivesse se desvirtuado tanto no caminho, todas aquelas companhias erradas, o maldito curso de teatro, o maldito sapateado (ai, que arrependimento de ter permitido a matrícula!)... Mas Maura Rúbia estava ali para isso. Para consertar tudo.

Do lado de fora do quarto, Maura Rúbia pensava no quanto ainda teria que aguentar os mandos e desmandos de Jacintha. Mas valeria a pena. O que era um regiminho, o que era fazer as vontades da velha? Nada, perto da grana na qual botaria as mãos assim que se casasse com Matheus Ricardo e eliminasse mãe e filhote.


Ano terráqueo: 1980

Estava tudo preparado. Lúcifer fumava seu cigarro, observando as espirais de fumaça. Tentava manter sua expressão blasé, mas por dentro fervilhava de contentamento. O velho caíra direitinho em sua rede. Não era divertimento que Ele queria? Não era dar uma sacudida? Pois Ele teria uma sacudida e tanto pela frente nos próximos anos...

- Lu, então está tudo pronto. Acho que vai ser mesmo divertido.
- Certamente, meu caro. E em alguns anos terráqueos, nos veremos novamente e poderemos rir juntos de todas as situações que ocorrerem. Vai passar rapidinho.
- O toque de mestre de sua ideia foi esse lance da consciência perdida... Vai ser muito interessante não me lembrar de quem eu sou, e você não fazer a menor ideia de quem é...
- Sim... e podermos viver como humanos por alguns anos. Sentir na pele os problemas, aflições e delícias dos mortais. Diz, não vai ser uma diversão das boas?
- Claro, claro, foi uma brilhante proposta. Já está tudo combinado com o anjo Bironel. Ele vai ficar no meu lugar nesses tempos. Tenho plena confiança nele, e, depois, esses anos vão passar num piscar de olhos. Nada como um anjo aquariano pra manter o mundo em paz.
- Hitler também fará um belo trabalho durante minhas férias. Confio-lhe o inferno plena e cegamente.
- Então acho que chegou a hora. Pronto?
- Prontíssimo!

Fora uma ideia fenomenal, digna da grande mente poderosa do Djanho. Deus e ele tirariam umas pequenas férias no planeta Terra, como humanos (não aquela baboseira de Jesus, Pai, Filho, Espírito Santo, trindade, ser Uno, aquela coisa complicadérrima). Dessa vez, eles perderiam suas consciências e encarnariam em seres humanos, penetrando em sua alma desde o nascimento. Não saberiam por nenhum momento que eram, de fato, Jeová e o Belzebu. Ou melhor, o velho não saberia. Lúcifer usaria seus poderes para trancar a mente, de maneira a não permitir o apagamento de sua consciência quando passassem pelo grande Lava a Jato Divino. E então, seu período de folga na Terra seria muito melhor aproveitado e, com Deus como humano, seus planos seriam realidade em alguns anos.

- Os corpos estão prontos! As crianças vão nascer! Vocês precisam passar pelo Lava a Jato e descer imediatamente.
- Meu caro Lúcifer, nos veremos em breve!
- Sim, companheiro. Muito em breve...

Lúcifer jogou sua bituca fora. Finalmente provaria o gozo de se fumar um cigarro humano.

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Ano terráqueo: 2009

Empapado de suor e de mijo, Matheus Ricardo acordou. Tivera o sonho mais estranho. Precisava escrever, segundo instruções de seu terapeuta de anos. Pensou ainda que seria uma excelente ideia ler o sonho para Maura Rúbia, enfatizando a parte de que há mais coisas no mundo além da vontade divina. Quem sabe assim ela compreenderia... Mas precisava omitir a parte final. Aquela parte que o aterrorizara, sem que soubesse exatamente o porquê. No fim do sonho, em meio ao buraco negro e a Deus, Matheus Ricardo reconhecera os olhos de uma pessoa que chegara chegando. Ainda assustado, levantou-se e sentou para escrever, tentando tirar da lembrança a imagem de seus próprios olhos enfurecidos, cheios de ódio, que invadiram seu sonho, chegando chegando, para falar sabe-se lá o que com Deus, no meio daquela escuridão toda e daquele nada. Que raios isso queria dizer? A pessoa que chegava chegando era ele!!!

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Ano terráqueo: 2009

Carlos Frederico sorria consigo mesmo. Tirando um cigarro do maço, pensava que tudo estava saindo exatamente como o planejado. Deu uma sacudida para tirar a cinza que se instalara em sua calça Armani e sorriu por dentro com o resultado das coisas.

Onde estava o isqueiro? Essa era uma parte ruim de ser humano: não poder invocar o fogo com as próprias mãos. E sempre tinha algum lazarento que roubava seu isqueiro. Mas o resto todo compensava, pensou enquanto tragava deliciosamente a fumaça para dentro de seus pulmões.

Há quase 30 anos atrás, quando encarnara no corpo de Carlos Frederico, Lúcifer só pensava em aproveitar as delícias humanas. E, dentre elas, a maior de todas as delícias: o corpo de um homem. Com a consciência de tudo o que acontecera intacta, Lúcifer foi conduzindo sua vida desde pequeno para tudo o que havia de bom. Aproveitou todo o lado da moda e do glamour. E também toda a parte boa do sexo com homens e mulheres. Principalmente com homens. Tinha de dar o braço a torcer: aquela era a melhor invenção do velho lá de cima. Nada como o corpo de um homem, a barba roçando no seu pescoço, as mãos fortes em suas coxas, o hálito fresco em sua orelha. Mas o melhor estava por vir.

Assim que o corpo de Carlos Frederico completou 29 anos, ele foi em busca de Matheus Ricardo. Porque, veja bem, Lúcifer sempre tivera um sonho secreto. Mais do que destruir o mundo, queria poder realizar sua vontade. Tem gente que quer comer a Madonna. Ele, não. Ele queria comer Deus!

E comera. Ah, como comera! Comera gostoso! O pobre velho, sem fazer ideia de nada, repousava dentro da alma atormentada de Matheus Ricardo, que crescera com tendências homossexuais. Até aí, nenhuma novidade. Lúcifer sempre desconfiara dessa história de Uno, de assexuado. Para ele, Deus sempre fora gay. Isso explicava o mundo. O mundo sempre foi gay! Então, nada mais natural que Deus, dentro de um corpo humano, e sem as barreiras da divindade, deixar aflorar seu lado mais quá-quá-quá. Aproximar-se de Matheus Ricardo tinha sido a coisa mais fácil, ainda mais para o Tranca Rua, sedutor, sexy e glamuroso. E agora, que já tinha satisfeito sua vontade primeira, estava pronto para o grand finale de seu plano diabólico (pleonasmo delicioso).

Enquanto Matheus Ricardo terminava tudo com Maura Rúbia no restaurante, o Belzebu jogou fora sua última bituca como mortal e preparou-se para o passo derradeiro. Não valia Deus destruir o mundo em 2012. Não, a destruição tinha que ser por conta dele! Colocando o dedo no gatilho e empunhando a arma contra a têmpora do corpo de Carlos Frederico, preparou-se para voltar e cantou pra subir.

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O anjo Bironel andava de lá pra cá desesperado. Coçava a barba falsa, aquela cola incomodava pra cacete. Não sabia mais o que fazer para trazer Deus de volta para o céu. Já tentara enviar avisos em sonhos, mas o grande Lava a Jato era realmente poderosíssimo: Deus não conseguia entender os recados. Bironel não aguentava mais ver seu mestre tão humilhado.

O anjo Sensatel, pobre... Nem ele nem ninguém no céu sabia de nada. Todos acreditaram na magia divina e na maquiagem esplêndida do Diabo, e achavam que ele era realmente Deus. Mas agora estava sendo difícil segurar a barra. Pra disfarçar, dizia que estava agoniado com o mundo, e cansado da mesmice. O pobre Sensatel tentava argumentar, animando-o com a possibilidade de destruir o planeta Terra em três anos terráqueos. E Bironel fingia estar entediado, no seu papel de Deus. Mas realmente não sabia mais o que fazer. Iniciou uma conversa com o colega sobre o que os humanos fariam com o tempo que lhes restava. Mas, de repente, o ambiente foi invadido por uma ventania, redemoinhos de substância amorfa e não identificada de tom que misturava aurora boreal com pitadas de verde oliva. Deus, ou melhor, Bironel se agarrava a uma nuvem, sua saia era levada pelo vento, ele viu Sensatel ser levado pra longe gritando “Segura na mão de Deus e vaaaaaaaai...”, e então PUFT! Tudo que existia sumiu em um buraco negro. A total inexistência ali, Bironel, no seu papel de Deus, e um buraco negro.

Alguém chegou realmente chegando.

- Mestre, finalmente!! O que aconteceu?? Por que demoraste tanto??
- Onde está Lúcifer??
- Lúcifer? Ué, por aqui ele não passou!
- Claro que passou, sua besta quadrada! Quem você acha que fez isso??

O som das botas de Lúcifer ecoou no meio do nada, e sua risada maléfica se fez ouvir.

- Huahuahuahuahuahua... Ponto para mim!

Bironel tentava segurar Deus, mas estava difícil. O Criador queria era voar no pescoço do Djanho.

- Admita, seu velho, que dessa vez eu ganhei!!
- Como assim? O que está acontecendo? – Bironel não estava entendendo nada. – Eu não te vi passar por aqui!
- Claro que não. Você e os anjos virginianos estavam muito ocupados com Michael Jackson. E ainda assim não pegaram o MoonWalk. Tcs, tcs, tcs...
- Lúcifer, você pode me explicar o que está havendo??
- Simples, Criador... depois de me livrar do corpo de Carlos Frederico – e aqui Deus sentiu um arrepio, misto de tristeza, amor e espanto - , subi pra cá e apertei o botão de emergência. Agora quem tem uma pergunta sou eu: o que você está fazendo aqui? Você deveria ter sumido junto com o buraco negro!
- Acontece, caro Belzebu, que a vida de Matheus Ricardo, a minha vida, estava um bololô só. Ele, eu, enfim, não aguentava mais! Antes mesmo da picanha argentina chegar, fui ao banheiro e enfiei uma faca de carne em meu peito, no peito de Matheus Ricardo... Por isso que eu estava pensando que ares de inexistência me fariam bem. Queria desistir da vida... No sonho que Bironel me enviou, com a destruição do mundo, tive a ideia de destruir minha existência. Era só um mortal, não podia destruir tudo, mas podia me destruir. E então enfiei a faca. Mas isso aconteceu exatamente na hora em que você apertou o botão, provavelmente... Voltei a ser Espírito e subi imediatamente.
- Hum... droga. Bom, acontece... Tenho a eternidade pra tentar de novo...
- Ai, você me cansa...
- Manda vir aí um bloody mary.
- Não tem mais pôrra nenhuma!! Você destruiu tudo!!
- Ah, é. Bom, vamos ter de reconstruir.
- Não, eu tenho uma ideia melhor. Vamos apertar o control + Z e desfazer tudo.
- Isso é possível?
- Claro. Pra Deus, tudo é possível. Eu sempre tive dúvidas sobre destruir ou não tudo. Então deixei esse sistema de stand by, indestrutível, em uma caixa de veludo vermelho bordado com fios dourados – disse Deus, enquanto a caixa flutuava para ele, a seu comando.
- Hum. Tá. Ah, que coisa mais sem graça. Então vai voltar tudo como era?
- Sim. Maura Rúbia ficará sem seu noivo, e Jacintha sem seu filhote, mas o resto continuará normal.
- Não exatamente normal. Eu ganhei essa partida, e mereço o prêmio.
- Tá, tá, tá... O que você quer dessa vez?
- O axé vai ganhar o mundo, e as rádios só vão tocar isso.
- Putz... tá. Que mais?
- O Fausto Silva vai se eleger presidente do Brasil.
- Você só pensa no Brasil... e o resto do mundo?
- Vou pensar... enquanto eu penso, aperta aí o control + Z. Que vai acontecer com os humanos?
- Pra eles vai ser como se nada tivesse acontecido.
- Então borá lá que tô seco por meu Bloody Mary – disse o Capeta, preparando-se para acender seu cigarro com as mãos.

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No enterro de Matheus Ricardo, Maura Rúbia foi a que mais chorou. Fez escândalo, queria se jogar no caixão e ir junto. Jacintha não derrubou sequer uma lágrima. Saíram do enterro direto para um bar.

- Fala, Jacintha, que decisão foi essa que você tomou?
- Eu tinha decidido me mudar sozinha pra Nicarágua. Depois de ver Matheus Ricardo se acabando por Carlos Frederico e de você vir me infernizar aquela noite, decidi desistir de tudo e ir aproveitar a vida. Mas agora tudo mudou.
- Por quê? Você não vai mais?
- Vou. Mas não sozinha. Quero que você vá comigo. Podemos viver felizes e tranquilas por lá, desfrutando do meu dinheiro, pegar vários moçoilos, jogar tranca o dia todo... como nos velhos tempos. No fim das contas, acho que o filhote atrapalhava nossa amizade...
- Poxa, Jacintha... é, pode ser super bacana. Eu vou.
- Vamos hoje mesmo?
- Eu só quero fazer uma coisa antes.
- O quê, meu bem?
- Vamos ao show da Claudinha??
- Claudinha Leitte? Ah, você não sabe? Ela vai estar em turnê na Nicarágua...

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Maura Rúbia e Jacintha fazem o check-in no aeroporto da Cumbica, depois de comprarem a Nova do mês. Um verme sai de dentro do umbigo do corpo de Matheus Ricardo. No céu, Michael ensina a coreografia de Thriller para os anjos do 47º batalhão. No inferno, Elvis é aplaudido depois de tocar Love me Tender.

Lúcifer toma seu bloody mary pensando na próxima estratégia. Vai ser difícil passar a perna no velho novamente. Mas ele há de conseguir. Pô, ele é sagaz! Afinal, ele criou as enchentes em São Paulo, os Hanson e o Bush!

Deus observa os anjos fazendo os passos de monstro, pensando na sua defesa pra próxima vez. Vai ser difícil se proteger dos golpes do Tranca Rua. Mas ele há de conseguir. Pô, ele é sagaz! Afinal, ele criou o Mc Donald’s, o Miles Davis e o corpo masculino!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Aula de xadrez


Você tem as suas peças, e eu tenho as minhas. E a intenção é movê-las. No meu caso, mover as minhas até minar as suas, sumir com elas desse quadriculado. Uma a uma, ir destruindo sua resistência, jogando fora suas barreiras. Penetrar no seu território, fugir do campo minado, eliminar os peões do caminho, conseguir finalmente pegar uma peça de maior valor. Pegar sua torre... seria ideal. Montar no meu cavalo e matar o seu. Encurralar seu bispo, comer sua rainha. Ameaçar seu rei, deixá-lo tremendo de medo, fugindo quadradinho a quadradinho, apavorado. Mas antes, tem o clima. Ninguém come ninguém, ninguém come nada. Os peões se movimentam tímidos. As jogadas demoram eternidades. Ninguém quer ser o primeiro a perder uma peça. Que bobagem, meu bem, porque pro jogo evoluir isso tem que acontecer, mais cedo ou mais tarde. E acontece. Armadilhas, iscas, alçapões. Vem comer meu cavalo que eu papo o seu bispo. Pega meu peão que eu ataco a sua torre. E você come a minha rainha. Trocas. Sobra espaço no tabuleiro pras peças deslizarem, dançarem, num vai e vem, avança e recua, bispos bailando em diagonal, cavalos trotando em L, a grande dama do jogo, dona do salão, dançando por onde quer. Olha no meu olho com cara de raiva porque ameacei sua torre, olha. Sorrio pra você porque você pensou que eu ia cair no seu joguinho e te entregar meu bispo branco de bandeja. Não assim tão fácil. Não me desconcentra, que eu fico boba e perco. Entrego minha rainha de mão beijada, facinha ali no meio das torres, esperando o ataque do peão que não veio. Mas te pego logo mais, deixa estar. Quero amordaçar seu rei e encurralá-lo no cantinho do tabuleiro, pra depois gargalhar. Mas meu rei também tem medo de você, das suas torres ferozes e dos seus peões invocados. E assim vamos jogando. Não tem parceiro aqui, à primeira vista, é um contra o outro, um querendo pegar o outro, um fugindo e o outro atacando, um avançando e o outro recuando, em turnos. Dá vontade de gritar “entrega o jogo logo de uma vez, derruba esse rei e deixa que eu pegue todas as suas peças só pra mim”, mas o prazer do jogo pode ser melhor do que o da vitória. Dá vontade de gritar “então vem logo, coma todas as minhas peças, joga meu rei no chão, eu me entrego”, mas, ah, que bom jogar. Vamos declarar um empate? Nem eu ganho, nem você ganha. Pode ser assim? Deixa suspenso, deixa no ar, deixa a tensão assim: qualquer dia, te pego na curva.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Se o amor aparecer, diz que não tô.

Quer saber? Eu tô é muito de boa com esse lance todo de amor. Já deu pra mim. Tô bem de boa mesmo. Não tô a fim. Até porque, pra mim, isso não existe. Não, não existe. Pra mim nunca existiu. E talvez não exista mesmo.

Que me desculpem os casais apaixonados e felizes, e os solteiros que ainda acreditam no amor. Mas pra mim essa história é furada. De verdade.

Pra mim, nunca foi amor. Foi posse. Foi amizade confundida. Foi tesão, foi carência, foi vontade. Foi doença (foi, principalmente, doença). Mas amor não foi. Então pode ser que nunca seja, pelo menos pra mim.

Tô eu passando minha saia branca na casa do meu amigo, pra sair. O ferro de passar roupa dele decidiu que me odeia, que que eu posso fazer? Começou a cuspir um treco marrom pelos buraquinhos de onde deveria sair água. Meu outro amigo vem me socorrer. Querido. E tira um sarrinho porque a saia já estava um pouco suja. Tava mesmo. Hahaha. Ok. E ele solta “Imagina, um gatinho, você joga essa saia imunda no chão do motel.” Primeiro, eu ODEIO motel. A não ser com os amigos. Segundo, que gatinho, cara-pálida?? Não tô meeesmo a fim de arrumar gatinho nenhum. Terceiro, sem chance de eu arrumar um gatinho e jogar a saia no chão do motel, porque, além de odiar motel e de não estar querendo um gatinho, não existe a mínima possibilidade de eu ir com um gatinho pra motel nenhum. Quarto: se eu precisar ficar me preocupando com a saia, popará. Aí é que não to a fim mesmo. Não gostou? Dá outra. Lava essa. Foda-se. Que eu já tenho muita coisa na cabeça pra me preocupar com isso.

Judiação. Meu querido amigo não falou por mal. Eu é que me irrito fácil, ainda mais com esse assunto. Porque eu tô de boa mesmo. Tranquila. Tranquilex. Não quero dividir minha vida agora. Não quero presenciar outra pessoa comendo (hahahahahaha), não quero acordar com ninguém do meu lado, não quero ter que ligar pra alguém depois dos meus ensaios, ou nos dias em que chego em casa depois do trabalho, morta. Não quero que me atrapalhem nos meus programas com meus amigos, não quero ter que deixar de ir em lugar nenhum e nem quero ter que ir em lugares que não estejam na minha programação. Não quero abrir concessões (posso?). Não quero ter que aprender de novo como se anda de mão dada. Eu tenho duas mãos. Só. E elas estão ocupadas no shopping, carregando sacolas, ou simplesmente livres ao lado do meu corpo. Não quero ninguém me dizendo que preciso emagrecer ou engordar, não quero ninguém querendo saber que horas vou chegar, não quero ter que ficar escolhendo roupa pra impressionar ninguém, não quero ter que medir minhas palavras, meus olhares, o volume da minha gargalhada. Não quero me preocupar com dia dos namorados, natal, aniversário. Não quero, não quero, não quero ninguém fingindo estar do meu lado. Não quero ninguém na minha frente, não quero ninguém atrás de mim.

Oh, menina, que coisa mais triste. Isso é por causa dos modelos errados que você teve, bobinha. O amor existe. Taí. E chega de repente. E pode ser lindo. Você está parecendo uma velha. Nossa, quanta amargura nesse coração... Nossa, que horror. Nossa, nossa, nossa.

Pode até ser, gente. Mas tô realmente me sentindo bem assim, desse jeitinho. Eu quis por tanto tempo alguém, um alguém pra dividir, um alguém pra mim, do meu lado. Mas eu nem me perguntava se eu queria de fato. Agora eu sei. Por enquanto, quero não. Tenho muita coisa pra fazer, muita coisa pra pensar, muita coisa pra ser. E desse jeito tá bom demais da conta.

Se o tal amor existir mesmo e bater aí na porta, diz que hoje não, obrigada.

Horário de verão de cu é rola

Não adianta. Eu acordo 6h20, mas meu corpo sabe que são 5h20 na verdade. Eu abro a janela e olho pra fora e o dia tá escuro. Dia o caralho. Noite. 5 da madruga é noite. E todos os relógios da casa podem dizer que já são 6h20, mas meu corpo sabe que é mentira. E eu já acordo mal-humorada. Pôrra.

Na hora de dormir é a mesma coisa. 11 da noite. Preciso dormir agora. Mas meu corpo, espertinho, sabe que são só 10 da noite. E ele não tem sono, mesmo eu tendo acordado 5 da matina. Um cu.

Fora a hora que perdemos por adiantar o relógio na madrugada do domingo. Eu só vou recuperar essa horinha sagrada daqui a 3 meses. Até lá, só me resta conformar-me... Mas eu não me esqueço dela... nas horas de sono durante a tarde, em pleno expediente, meus olhos querem descer, e me dão a desculpa daquela horinha perdida. Merda.

“Ah, mas que delícia, a gente sai do trabalho e ainda tá claro!” Grandes merda! Eu não sou criança pra ser enganada. Saio do trabalho, tá claro, mas já são 7 da noite. E daí??

Desculpem a ranhetice, mas eu realmente ODEIO horário de verão.

Meninas que eu odeio

Sambão comendo solto. Tarde boa de domingo, quintal de casa em Sousas, cervejinha gelada no copo. Uma menina sambando na minha frente. Odeio essa menina. Por que, mesmo? Que que eu sei dela? O nome. As profissões (três). Sei também que ela dava em cima de um ex-namorado meu. Mas quem me contou isso?? Ele.

Até então, ela era pra mim um nada. Eu nem sabia da sua existência. E ele chegou contando que ela dava em cima dele. Ódio mortal imediato. Juras de morte, cara feia, olhar fuzilante, fatal. E agora, quase três anos depois, eu ainda odeio essa pobre coitada.

Olhei a tal sambando ali na minha frente e comecei a pensar. Pode ser que ela seja muito legal. Pode ser que não, mas eu nem sei. Nem sei quem ela é de verdade. Pode ser uma piriguete mesmo, uma biscateira. Mas pode ser bacaninha. E é feinha, coitada, que bicho sou eu, que bicho era eu que não confiava no meu taco desse jeito?? Que bicho era ele que precisava se autofirmar desse jeito? Instigando meu ciúme doentio? Que merda esse cara fez comigo pra eu odiar essa pobre coitada até hoje? Meio que sem motivo?

Olhei ao redor e achei outra menina que eu odiava, mas dessa eu nem sabia o nome. Mesmo. Olhei pra cara dela e pensei “Eu sei que odeio essa aí, mas nem sei o nome dela. Sei que tem alguma coisa a ver com o outro lá, provavelmente dava em cima dele também”. Que monstruosidade. Eu nem sei quem é essa pobre.

Decidi que não quero mais odiar as pessoas à toa. Sem conhecê-las. Sem motivo. Já odeio muita gente. A lista não precisa aumentar assim, ainda mais por causa de um desequilibrado que não faz mais parte da minha vida há tempos.

Meninas, vocês estão perdoadas do meu ódio. Só não me deem motivo, ok?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Assinando contratos

Eu ouço muitas coisas. A mais nova é que estou assinando contratos com a vida. Na opinião de meus amigos, cedo demais. Não sei se é a merda do retorno de Saturno, se é uma fase de questionamentos, não sei. Enfim, hoje quem fala por mim é o poeta, não eu. Que ele sabe mais.

Parece triste, mas não é, não. Não por enquanto.

Os Ombros Suportam o Mundo

Carlos Drummond de Andrade


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Folhetim Vagabundo – História II – Capítulo I – O fim e o início

Para ler ouvindo isso: http://www.youtube.com/watch?v=tXXHYX7zk1c



Senhor Odair,

Conforme conversamos no funeral do senhor seu pai, envio-lhe a carta com as últimas palavras do pobre homem. Algumas semanas antes de morrer, o Sr. Honório confiou à direção da clínica esta carta, pedindo que somente fosse entregue ao senhor (e ao seu irmão Cosmo) após sua morte. Expressando nossos profundos pêsames novamente, desejamos que a paz possa reconfortar seus feridos corações.

Atenciosamente,
Matheus Criandello,
Diretor da Casa de Repouso Feliz Regresso.




Holambra, 2 de novembro de 2006
Casa de Repouso Feliz Regresso

Aos meus filhos Odair e Cosmo

Queridos filhos, escrevo-lhes mais uma vez, quem sabe a última, pois por muito tempo acalentei em minh’alma a esperança de que seus corações fossem tocados e de que vocês viessem finalmente me visitar. Todas as noites, durante esses 15 anos em que já estou aqui, pedi a Deus para que colocasse o perdão nos espíritos de meus amados filhos, e para que os fizesse ver que todo ser humano tem o direito de errar e de se retratar, de reconhecer o erro, a culpa, por mais que possa ter ferido os sentimentos e os corpos daqueles a quem um dia amou. Orei durante esses longos 15 anos para que vocês me perdoassem um dia, para que vissem que eu estava fora de mim naquela maldita tarde quente, para que entendessem que eu estava tomado por algo que não era eu. Rezei todas as tardes para receber a visita alegre de um de vocês, ou quem sabe de minhas noras e netos. Mas a solidão tem sido minha única companheira nesses anos todos.
A solidão e minha fértil imaginação. Passei dias e dias imaginando como vocês estariam vivendo, como estariam gastando a minha fortuna, enquanto eu estava aqui encarcerado nesta clínica, neste asilo, neste inferno. Imaginando suas esposas batendo carros comprados com meu dinheiro, seus filhos estudando em escolas caríssimas pagas com meu dinheiro, vocês mesmos esbanjando meu dinheiro em uma vida social que me foi negada, já que estou aqui, preso. Imaginei também a ânsia de vocês por ver-me morto, para finalmente poderem colocar as mãos em toda a minha fortuna, e não somente na pequena parte que lhes cabe durante o tempo em que eu estiver vivo. Acalentei até muito pouco tempo atrás o sonho de vê-los entrando por esse gramado, felizes, de mãos dadas, dizendo que me perdoavam e que me levariam de volta à vida. Mas nada disso aconteceu.
Minto quando digo que a solidão tem sido minha única companhia. Houve também uma nova companheira, que chegou com força total nesse último ano de minha vida. Ela é bonita, e tem um vigor fenomenal, apesar de ser um pouco fria. Seu nome é Vingança. Dizem que se deve comê-la fria. Quando estiverem lendo esta carta, meu corpo já estará frio, e minha Vingança estará pronta para ser saboreada por mim, onde quer que eu esteja.
Mas vamos logo ao que interessa: MEU TESTAMENTO. Não é somente isso que vocês esperam? Imagino até que tenham pulado os parágrafos anteriores, na esperança de finalmente saber quem leva meu rico dinheirinho. Pois bem, seu bando de filhos da puta: vocês vão ter de penar um bocado até chegar a ele. Tempo não me faltou aqui (nem tampouco motivação) para criar uma bela de uma caça ao tesouro, digna de filmes que as putas das suas esposas devem adorar ver, nos motéis em que os chifram com seus amantes que devem ter paus muito maiores e mais potentes que os seus, uma vez que nenhum de vocês puxou a mim no quesito dote. Se vocês quiserem colocar as mãos na grana, vão ter que comer o pão que o diabo amassou e recheou com merda mole e sangrenta.
Nesta carta, vocês receberão a primeira pista para a caça ao tesouro que preparei para vocês, seus bostas. Cada pista levará a outra, espalhada pelo mundo real com a ajuda de empregados da clínica, devidamente pagos. Vocês passarão por tarefas humilhantes, por lugares imundos como a cara de vocês, até chegarem à minha herança. Porcos que são, tenho certeza de que não se negarão a nada para ter acesso ao dinheiro. Minha dúvida é só uma: terão vocês cérebro para decifrar as pistas? Veremos, meus caros, veremos...
A primeira pista vai agora. Preparados, seus veadinhos? Vamos lá:

Do caralho pinga pôrra
Da buceta pinga mel
Das vacas pinga leite
Das flores pinga o mel

Essas moças sabem disso
Sabem disso e muito mais
Encontrem-nas na terra do pau grande
E a próxima pista pode lhes trazer paz


Gostaram, seus animais? Honrem meu nome e meu sangue e ponham a cabeça pra funcionar. Peçam ajuda pras biscates que vocês desposaram. Elas entendem do negócio como ninguém, e podem até mesmo conhecer algumas das moças que citei.
Mas estou me alongando. Adeus, seus pulhas. Daqui do inferno vos contemplo.

Com amor,
seu pai,

Honório Nascimento Villas Boas.



Acompanhe o segundo capítulo dessa história amanhã, terça-feira, no blog da Tatiana Rocha, aqui, ó!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Selva

Meu aluno foi esfaqueado terça-feira, numa tentativa de roubo de seu celular. Não, isso não aconteceu em um bairro afastado, na periferia, de noite. Eu leciono em uma escola particular, no centro da cidade, e isso ocorreu ao meio-dia, debaixo de um puta sol. Ele está na UTI.

O adolescente Renan Cunha de Souza, de 16 anos, foi esfaqueado na tarde de ontem durante tentativa de assalto no Viaduto Cury, no Centro, em Campinas. Ele cursa o primeiro ano de informática no Colégio Politécnico Bento Quirino e voltava para casa. No dia anterior, Souza tinha ganho um i-Pod de presente de aniversário. Souza está internado em estado grave na UTI do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti e, segundo boletim médico, corre risco de morte. Até o fechamento desta edição, nenhum suspeito havia sido preso.
http://www.puccamp.br/servicos/detalhe.asp?id=47860


http://cosmo.uol.com.br/noticia/39013/2009-10-07/pm-prende-acusado-de-esfaquear-estudante.html

Puta que pariu. É tudo que eu consigo pensar. Que merda de mundo é esse? Se a gente pensar muito, revolta. Revolta demais.

A gente ouve histórias como essas todos os dias. Dá no jornal, alguém comenta no salão de beleza, a mãe chega contando. E a gente se sente mal, mas passa. Porque vira normal. Mas pôrra, ele é meu aluno. Eu o vejo todos os dias. E ele é uma gracinha de aluno. Notão na minha matéria, escreve bem, super comportado sem ser nerd. Uma graça. Imaginá-lo nessa situação, imaginar os dois colegas que estavam com ele, que também são meus alunos e que também são duas graças, isso me deixa meio tonta. Cambaleando. Enojada, com ânsia.

Existe alguma justiça nisso? Existe alguma justiça? Esse mundo tem muita coisa linda, mas tem muita merda também. E pensar nesse lado me entristece.

A classe desse aluno é um inferno, eu sempre brinco. São quase 50 alunos na sala, um monte de moleques, eles não param um minuto, muitos não se interessam por nada. Uma sala difícil de dar aula. Eu vivo dizendo que não vou pegar essa turma no ano que vem. Mas agora estou até pensando de novo. Porque eu quero poder fazer a minha parte, poder fazer o que eu puder fazer de bom por esses alunos, esses três em especial, e todos os outros também. Colaborar com o que eu posso, levando ideias que eu considero importantes, indicações de coisas importantes, diretrizes pelo menos. Se eles vão seguir ou não, aí eu já não posso controlar mais.

Renan, luz pra você, meu querido. Estou esperando ansiosa pra ler suas redações de novo, pra corrigir suas provas e marcar com orgulho aquele 9 bonito. Pra te ver no seu lugar de novo, que é ali com a gente, com os seus colegas, sorrindo, aprendendo, ensinando. Volte logo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

TPM + Trabalho

Meu, eu ando morrrrta. Morrrrta mesmo. De bode total. Tô sem tempo nem pra peidar, mas vim aqui desabafar. Trabalho, trabalho, trabalho. Trabalho atrasado. Não vou conseguir entregar as notas a tempo. E fica aquela pressão, fora e dentro de mim. Tenho coisa pra fazer. Droga. Não estou livre, tenho coisa pra fazer.

Hoje mesmo: trabalho de manhã, trabalho de tarde, trabalho de noite. Foda pra caralho. Queria jogar um baralho com meus amigos. Queria bater um papo, tomar uma breja. Mas não vai rolar. Trabalho, trabalho, trabalho. Tá foda.

E TPM. Tudo junto. Me segura nesse feriado. Que eu quero a morte. Não me vem acordar cedo pra aproveitar o sol, aproveitar o dia. Eu quero aproveitar a minha cama. Pôrra.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Folhetim Vagabundo - a estreia!!!

People:

Novidade na área. Começou hoje o projeto
Folhetim Vagabundo. Nele, seis blogueiros amigos irão escrever uma história a 12 mãos, cada um colocando um capítulo a cada dia da semana.

A Luana Dalmolin - http://impressoesemdesalinho.blogspot.com - começou a nossa primeira história hoje.
Amanhã, quem continua sou eu, aqui no meu blog - http://derrubandoparedes.blogspot.com.
Quarta, vem a Tatiana Rocha - http://coisarara.blogspot.com/ - , continuando a história.
Quinta é a vez de Eduardo de Santhiago - http://portudoquesinto.blogspot.com.
Na sexta, quem quebra tudo é a Marina Franco - http://olhosrecemnascidos.blogspot.com.
E no sábado, a Juliana Hilal - http://retalhosdejulianahilal.blogspot.com - vem pra finalizar a nossa primeira história.

No domingo a história ganha um título e irá inaugurar o blog Folhetim Vagabundo, onde publicaremos semanalmente nossas insanidades conjuntas. E na segunda-feira tem início outra história, com nova ordem dos blogueiros.

Vai perder?? Lógico que não! Acesse o primeiro capítulo da primeira história do Folhetim Vagabundo e não perca nem mesmo um capítulo desse projeto que promete. Vai lá:
http://impressoesemdesalinho.blogspot.com/2009/10/folhetim-vagabundo-estreia.html

Ah, e ajude a divulgar, ok?

Beijos e boa leitura!!

Folhetim Vagabundo - Capítulo 2 - 47

Este é o segundo capítulo da história que começou ontem em:
http://impressoesemdesalinho.blogspot.com/2009/10/folhetim-vagabundo-estreia.html

- ... então os trezentos reais devem cair na sua conta lá pelas 4 da tarde.

Ricardo. Ainda falando. Como fala, esse idiota...

Ele já fechou as cortinas. Oba, uma noite de sol. As melhores noites são sempre as noites de sol.

Era preciso arrumar tudo, deixar tudo preparado.

Desligou o telefone sem ao menos responder às últimas palavras de Ricardo. Se ele ligasse de novo, não atenderia. Desligou o celular. Falta de bateria é mesmo a desculpa perfeita para esses momentos.

Um banho, era isso. Um banho longo e demorado, quente, até que o vapor preenchesse todo o banheiro e entrasse pela mente, limpando, levando a dor, os resquícios da bebida, as dúvidas e as lembranças dolorosas. A culpa, principalmente a culpa.

A esponja branca passeava pelo corpo sem pressa, sem pressão. Brincava nas pernas, na barriga, a espuma escorria pelos tornozelos. Ao chegar aos cortes profundos do antebraço esquerdo, a esponja se tingiu de vermelho, um vermelho guache, misturado com a água. O sabonete ardia, gritava dentro das feridas abertas na pele, os 47 cortes milimetricamente e precisamente desenhados. 47, ainda. 47 pequenos cortes, finos cortes, retos cortes, lindos cortes. Ainda faltava muito. Mas nesta noite teremos sol.

A toalha preta não mancha com o sangue. Tinha sido bom ter escolhido essa dentre as outras. Os pés deixam manchas d`água no assoalho, mas elas secam. No fim das contas, grande parte das coisas da vida passa. Algumas coisas ficam.

Ainda havia muito pra fazer. Era preciso arrumar tudo, deixar tudo preparado.

A campainha soa. Uma vez. Quatro e quarenta da manhã. Ricardo? Ele não teria o desplante... Seria Ana? Não, Ana não. Hoje não. Porteiro filho da puta, dorme de babar e qualquer mané entra nesse prédio a essas horas...

A campainha soa. Outra vez. 15 segundos pra levar as garrafas e o copo (vazios) para a cozinha, tirar esse cinzeiro imundo daqui da sala, esse cheiro já está dando enjoo, enfiar a grande faca de cozinha debaixo do sofá. Não dá tempo de limpar o sangue, é muito sangue, deixa essa toalha aqui por cima, escondendo. Quem quer que seja que toque a campainha a essas horas merece que se abra a porta nua. Mas e os cortes?

A campainha soa. Outra vez. O roupão amarelo cobre o corpo. Os cabelos pingam, embaraçados ainda. Uma última olhada para a sala.

Chave, maçaneta, porta aberta.

Morena, cabelos negros cuidadosamente desajeitados, seios pequenos, pernas e braços finos, porém bem delineados. A mulher do quadro! Seu olhar fixo não deixa passar nenhuma emoção. Estende os braços delgados e, em suas mãos, há uma caixa de veludo vermelho, bordado com fios dourados. Uma gota de sangue cai no chão. Sangue escuro, grosso, brilhante. E vem de dentro da caixa.


O resto? Só amanhã, no blog da Tatiana Rocha, aqui, ó:
http://coisarara.blogspot.com/2009/10/folhetim-vagabundo-capitulo-3.html

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vem aí...

Uma surpresa fenomenal!

Só ergo a cabeça das pilhas de papéis pra dizer: aguardem que vai ser o bicho!

Dicas:

- nova leiturinha diária pra você;
- gente muito foda escrevendo;
- diversão garantida.

Como diria Sílvio Santos, aguardemmmmmmmmmm.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pilhas

Pilhas de redação pra corrigir.

Pilhas de trabalhos pra corrigir.

Pilhas de exercícios pra corrigir.

Pilhas de diários de classe pra preencher.

Pilhas de matérias para estudar.


Haja paciência, Deus meu, Deusa minha.
Se eu sobreviver, eu volto.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Annoying

Na terça-feira tirei a tarde do trabalho pra fazer várias coisas que eu tava precisando fazer. Só não sabia que ia passar a raiva que passei. Merda, como pequenas coisas do cotidiano podem irritar a gente... Vai vendo.

Exame médico. De rotina. Um simples ecocardiograma. Primeiro que pra chegar na pôrra da clínica tem que dar uma volta do caralho. E o trânsito aquela beleza. Tá, cheguei. Sala de espera. Tiro quilos de trabalho da sacola, vamos trabalhar. Corrigindo trabalhos. Juliana? Sou eu.

- Você não tem cadastro na clínica, né?

(Não... só estou aqui porque é a única merda de lugar que fazia este exame de tarde...)

- Não, não tenho.

Milhares de perguntas depois...

- Peso?
- Não sei.
- Mais ou menos.
- Não faço nem ideia, há milênios que não me peso.
- Mas eu preciso colocar alguma coisa... Você não tem uma estimativa?
- Não.
- 60? 70?
- Amor, não faço a mínima ideia.

A coitada nunca tinha visto isso, uma pessoa que não faz ideia do seu peso. E não podia conceber essa situação. E agora? O que ela podia fazer? Não a ensinaram a lidar com essa situação imprevista, absurda. Uma pessoa que não sabe seu peso? Ela estava obviamente desesperada.

E eu estava irritada pra cacete.

Não sei meu peso, pôrra. Não estou feliz com ele, então nem quero saber qual é. Não me peso há muito tempo, não faço ideia mesmo, pôrra, me deixa, é meu direito!

Mas não dava pra explicar isso pra anta, na salinha de espera lotada de velhinhas.

- Mas o que eu ponho? Uns 65?
- Vocês não têm balança aqui?
- Não...
- Essa informação é importante pro exame?
- É...
- Bom, se essa informação é importante pro exame, o mínimo que vocês deveriam fazer era ter uma balança aqui!
- Mas é que é muito difícil alguém não saber o peso, todo mundo sabe.
- Pois é, mas EU NÃO SEI!!

Ela calou a boca e pôs 65. Claro que não é 65. Mas foda-se.

O exame foi normal. Tava tudo normal, apesar dos cigarros todos e da vida sedentária. Tudo bem, obrigada.

Agora tem que pagar a merda do boleto do seguro, porque a anta aqui esqueceu no dia. Esqueci bem esquecidinho. Daí não dá mais pra ser em caixa eletrônico. Tem que ser numa agencia do Bradesco. Puta que pariu... Bora lá. Onde tem um Bradesco mais perto daqui? Hum... o da Silva Telles. Beleza, brigada. Pode mesmo ser uma boa. No Cambuí, vai ter lugar pra estacionar. A essa hora, plena terça-feira, quase 3 e meia da tarde, quem é que vai ao banco?

Um bando de filhadaputa. Porque não tinha sequer uma vagazinha na frente da merda do banco. Toca eu parar o carro no estacionamento, o qual só vi depois que já tinha passado. Dei uma ré mal dada e manobrei pra entrar, enquanto dois caras na rua ficavam olhando e comentando. Juro que se quando eu sair esses comédias ainda estiverem aí vão ouvir...

Moço, tem convênio com o Bradesco? A bicha do estacionamento me diz que não, que o Bradesco é pão duro. E eu que pago o pato. O pato e a pôrra do estacionamento. Foda-se, deixa eu pagar logo essa merda que já tô bufando de puro ódio.

Entro no banco. Pelo menos a merdinha da porta giratória não apitou dessa vez. Moço, onde são os caixas? Ah, não tem caixa? Só caixa eletrônico? Ah, que ótimo, que maravilha... Não, eu não tenho cartão, graças a Deus não tenho conta nesse banco de bosta.

A bicha do estacionamento me cobrou “só” 2 reais pela minha parada de 4 minutos. E me disse que tinha outra agência na Coronel Quirino. Aguenta de novo o trânsito do Cambuí. Quem disse que tinha vaga naquela merda? Claaaro que não. Enfiei o carro num espaço de uma moto, todo de lado. Foda-se. Um cara com uma caixa de papelão me ajudou, fazendo sinais. Quando desço do carro, ele me mostra a caixa cheia de paçoquinhas e solta a pérola: moça, compra uma paçoquinha pra eu almoçar? Tô com fome. Caralho. No sábado eu fui na feira hippie e esse mesmo cara veio com essa mesma frase pra mim... Eu não gosto de paçoca. E já eram 4 da tarde quase, ele não tinha almoçado ainda? Desde sábado?

Fila no caixa. Óbvio. Claro. Uma nega fazendo supermercado no banco. Sete horas e meia praticamente no caixa. Daí ela diz pra mãe: mãe, fica no caixa que eu vou tirar um cheque lá no caixa eletrônico e já volto. A veia fica, empatando mais a fila. Olho pra nega, de costas. Magrinha, filhadaputa, deve saber o peso de cor e salteado, e dizer com orgulho. Com uma calça jeans atolada no rabo e uma blusinha colada. Quando ela vira de frente, Jesus, que susto! A mulher parecia ter uns 184 anos. Com corpinho de 18 (e roupinha de 15). Sai pra lá, exu!

Pago a merda da conta, fazendo uma nota mental pra nunca mais esquecer essa droga. Separo um real em moedas pro cara da pôrra da paçoca, pra me retratar com ele. Na saída, entrego. Tó, moço. Ele me olha com uma cara de ué. Eu só solto essa, antes de entrar bufando no carro: eu não quero paçoca, eu odeio paçoca.

Ainda tenho que ir no sindicato dos professores, pedir a restituição de 60% da contribuição sindical... puta trampo. Mas tá valendo, qualquer real a mais na minha conta faz diferença. Até que foi tranquilo lá. O foda é o trânsito do Cambuí. As madames que não têm pôrra nenhuma pra fazer, a não ser levar a vagabunda da filha na aula de ballet na Juliana Omatti às 4 da tarde de uma terça-feira, e parar o trânsito do bairro inteiro pra descer a donzela na frente da escola. Põe essa vagabundinha pra trabalhar, põe! Pra ela aprender que a rua não é dela! Vai você pra casa, lavar uma louça, sua vadia! Vai estragar um pouco essas unhas, desarrumar esse cabelo de laquê, sua vaca veia! E me deixa passar que eu tenho muito o que fazer!!!

Respira.

Tudo bem.

Sindicato dos professores, chá com bolo. Pedido de restituição feito. Mais trânsito e casa. Arrumar malinha e me mandar pro flamenco. Socar o pé no chão no curso do Pol Vaquero, pra desestressar. Suar, pra ver se perco peso e finalmente crio coragem de subir na balança, pra da próxima vez responder pra secretina meu peso na ponta da língua.

Melhor não. Ela que se foda.