quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Aula de xadrez


Você tem as suas peças, e eu tenho as minhas. E a intenção é movê-las. No meu caso, mover as minhas até minar as suas, sumir com elas desse quadriculado. Uma a uma, ir destruindo sua resistência, jogando fora suas barreiras. Penetrar no seu território, fugir do campo minado, eliminar os peões do caminho, conseguir finalmente pegar uma peça de maior valor. Pegar sua torre... seria ideal. Montar no meu cavalo e matar o seu. Encurralar seu bispo, comer sua rainha. Ameaçar seu rei, deixá-lo tremendo de medo, fugindo quadradinho a quadradinho, apavorado. Mas antes, tem o clima. Ninguém come ninguém, ninguém come nada. Os peões se movimentam tímidos. As jogadas demoram eternidades. Ninguém quer ser o primeiro a perder uma peça. Que bobagem, meu bem, porque pro jogo evoluir isso tem que acontecer, mais cedo ou mais tarde. E acontece. Armadilhas, iscas, alçapões. Vem comer meu cavalo que eu papo o seu bispo. Pega meu peão que eu ataco a sua torre. E você come a minha rainha. Trocas. Sobra espaço no tabuleiro pras peças deslizarem, dançarem, num vai e vem, avança e recua, bispos bailando em diagonal, cavalos trotando em L, a grande dama do jogo, dona do salão, dançando por onde quer. Olha no meu olho com cara de raiva porque ameacei sua torre, olha. Sorrio pra você porque você pensou que eu ia cair no seu joguinho e te entregar meu bispo branco de bandeja. Não assim tão fácil. Não me desconcentra, que eu fico boba e perco. Entrego minha rainha de mão beijada, facinha ali no meio das torres, esperando o ataque do peão que não veio. Mas te pego logo mais, deixa estar. Quero amordaçar seu rei e encurralá-lo no cantinho do tabuleiro, pra depois gargalhar. Mas meu rei também tem medo de você, das suas torres ferozes e dos seus peões invocados. E assim vamos jogando. Não tem parceiro aqui, à primeira vista, é um contra o outro, um querendo pegar o outro, um fugindo e o outro atacando, um avançando e o outro recuando, em turnos. Dá vontade de gritar “entrega o jogo logo de uma vez, derruba esse rei e deixa que eu pegue todas as suas peças só pra mim”, mas o prazer do jogo pode ser melhor do que o da vitória. Dá vontade de gritar “então vem logo, coma todas as minhas peças, joga meu rei no chão, eu me entrego”, mas, ah, que bom jogar. Vamos declarar um empate? Nem eu ganho, nem você ganha. Pode ser assim? Deixa suspenso, deixa no ar, deixa a tensão assim: qualquer dia, te pego na curva.

2 comentários:

Anônimo disse...

Legal você faz um mega texto falando sobre o xadres, cheio de recursos ortograficos, mas quando desafiada some do mapa, né srª. Juliana Palermo. O desafio ainda esta de pé, quem sabe ano que vem?
Se for esperta saberá meu nome.

matheus disse...

ASEUHASEUHASUE

qualquer dia, te pego na curva!

tinha certeza que era sobre o nosso jogo