sexta-feira, 24 de julho de 2009

A carta da Maria Helena

Maria Helena. Era uma colega de trabalho da minha mãe no Centro Médico (não, Du, não é sua avó. É outra Maria Helena.). Ficou pouco tempo trabalhando com ela, lá. Era uma doidinha. Pelo menos essa é a visão que eu tenho dela. Eu devia ter o quê, uns 10 anos? Por aí. Minha mãe sempre foi muito séria, agora que descambou. Mas antes era muito séria, não falava besteira. E a Maria Helena era o máximo. Chiquérrima, com uns colares enormes, toda perfumada e com cores berrantes.

Não sei bem por que ela me escreveu essa carta. Tento lembrar e não consigo. Acho que foi na época em que minha mãe ficou doente, mas não tenho certeza. Faz muitos anos, quase 20. O fato é que um dia ela me escreveu uma carta, e pediu pra minha mãe me entregar. E essa carta é um dos tesouros que eu trago comigo.

Arrumando meu quarto outro dia, encontrei. Não que eu tivesse perdido: tava guardada junto com os tesouros. Mas achei de novo.

Reproduzo aqui a carta na íntegra. Do jeitinho que foi escrita. Se pudesse, escaneava, mas não tenho scanner. A letra dela era linda. Letra de doidinha.

De vez em quando, de anos em anos, releio a carta. E cada vez ela me parece mais atual.


Ju, querida.

Tenho mesmo pensado em você.

Pensado que você é uma menina tão especial, que todas as coisas especiais haverão de acontecer para você de um modo muito gostoso e muito bom.

É assim que eu faço com as minhas filhotinhas quando elas estão preocupadas e às vezes até mesmo não muito felizes com elas mesmas, ou até comigo. Sabe como é né, Juliana, nem sempre tudo é muito fácil, a gente complica um pouquinho as coisas, as coisas nos complicam e assim é que a vida tem valor. A gente vive, a gente cresce diante das circunstâncias.

Puxa, tocou o telefone três vezes e eu não segurei o pensamento como diz sua mãe.

Bem, como eu ia dizendo... (que é que eu ia dizendo mesmo?)

Olha aqui, paixãozinha, a verdade é que não é bolinho ser e estar bem diante de todas as coisas que nos acontecem. Não é fácil, mas é bom demais, Ju, porque só assim é que teremos certeza de ser felizes, porque todas as escolhas serão nossas. Claro que outras pessoas (que nos amam muito) vão nos ajudar, mas se for pra valer, a opção tem que ser “nossa”.

Linda, você é linda por dentro e por fora. Essa beleza é própria de pessoas especiais e que terão que se responsabilizar por todos os outros que a cercarem. Esse é o preço de ser estrela com luz própria (estrelinha de verdade, saca?).

Ju, preciso parar de escrever. Que letra horrorosa, desculpe, viu?

Um super beijo para você. Adorei a cachorrinha.

Não esqueci das menininhas. Vamos nos encontrar?

Bye, bye.

Maria Helena.

Para pensar: “Somos o que somos, não o que parecemos ser, nunca maior ou menor diante dos olhos de Deus.”

OBS. : - Beijos para a Marianinha


Fico aqui pensando por que raios ela escreveu uma carta dessas pra uma menina de 9, 10 anos. Na verdade, acho que ela sabia que eu entenderia. Só não sei se ela sabia que eu entenderia cada vez mais. Até hoje.

Não sei onde essa mulher está hoje em dia. Uma pena. Porque essa carta, como eu disse, vem comigo pela vida toda. E ela vem junto, mesmo sem saber.

2 comentários:

Marina F. disse...

Puxa, que lindo!
Adorei.
E tudo o que ela diz é muito verdade.
bjs.

Gi disse...

Gente! A Maria Helena conseguiu escrever uma carta eterna!!!

Poucos no mundo tem esse dom....