quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Levando um lero com a Fada Azul

Os meus horários de almoço são muito corridos de segunda e quarta. Porque nesses dias eu dou aula até 12h45, corro pra casa, almoço e tenho que entrar na editora às 14h00. Eu sempre acabo comendo na frente da TV. E essa semana, com o sinal do Telecine aberto, tenho visto algumas coisas, alguns pedaços de coisas.

Hoje estava passando Inteligência Artificial. Eu amo esse filme, podem falar o que quiser. Eu vejo o Kubrick no filme (claro, o projeto era dele). Vejo muito, por trás do Spielberg. Estava justamente no final, na parte em que David vai pra Cidade Perdida (Manhattan), encontra a Fada Azul, e daí pra frente. Eu fico grudada na frente da TV, sem nem respirar direito, porque eu acho isso muito bonito, muito bonito.

Ando bem estranha, mesmo. Eu não diria sentimentalóide, diria super-emocionável. Qualquer coisa me emociona, me desestabiliza. E esse filme é foda. Fiquei pensativa pacas quando vi a cena do David com seu construtor, quando o cara fala que ele (David) tem a maior bênção dos seres humanos, que é a de lutar por seus sonhos, e também a maior bobagem, que é acreditar em coisas que não existem. Bonito, bonito. Somos assim mesmo, nós seres humanos. Não todos, óbvio. Mas desses, que não são assim, eu nem quero saber.

A jornada toda de David no filme é uma só, e isso tem muito a ver com a conversa que tive ontem com Tatiana na cozinha dela. O robô-menino, menino-robô passa o filme todo atrás de se tornar um menino de verdade, como o Pinochio. Ele quer ser único. Quer encontrar a Fada Azul e pedir a ela que faça com que ele se torne um menino de verdade. Um menino único. Ele vai literalmente até o fim do mundo atrás de seus sonhos. E, contra todas as expectativas, ele encontra a Fada Azul, mesmo que ela não seja exatamente o que ele pensava, e mesmo que seu sonho nunca possa se tornar real.

Irônico, muito irônico, é David descobrir que estavam se preparando para lançar uma linha de Davids. Ele, que queria ser único. Ele, que queria ser um menino de verdade, vê a si mesmo na linha de produção, tantos e tantos iguais. Mas o que ele não sabe e a gente sabe é que ele é, sim, único. Ele chora, ele sente. Tão fácil ver as coisas da vida dos outros. Tão difícil olhar pra dentro de nós mesmos.

Quem sou eu? O que quero deixar no mundo, como marca minha? Por que quero ser único? David viaja por mais de duas horas de filme atrás dessas questões, na verdade, atrás da única questão que realmente interessa.

E eu me arrepio. E eu tenho vontade de chorar. Porque também queria ser única, porque também queria ser uma menina de verdade, porque também iria até o fim do mundo atrás dos meus sonhos, dos meus desejos. David quer sua mãe de volta, mesmo que por um dia. Mesmo sabendo racionalmente, com sua mente de robô, que seria só um dia e ponto final. 2 mil anos se passam. Seres humanos não existem mais. Robôs não existem mais. David é único.
Mas ele já não era?

Era. Mas não via.

Eu vejo. Juro. Queria fazer todo mundo ver também. Mas pérolas e porcos são incompatíveis. A Tati disse. O mundo disse antes dela. E estão todos certos.

Quantas vezes queremos algo apenas por um dia, mesmo que saibamos que depois nunca mais? Discutimos isso entre amigos esse fim de semana. Quanto vale a pena? Quantas vezes já senti isso... Não sinto mais, agora, acho que ando mesmo velha e calma, mas, ah, já senti demais o desespero e já tentei me enganar por diversas vezes com esse papo de "só por hoje". Não quero mais nada só por hoje, não. David quer sua mãe, mesmo que por um dia. Eu não sou robô. Não sou mesmo.

Por isso, me vejo em busca da Fada Azul, que eu sei que não existe, fazendo pedidos que talvez sejam impossíveis. Porque eu sou humana. Porque acredito em coisas que não existem, e porque vou atrás de meus sonhos. Deixa, então, eu tentar pedir direito, o que realmente importa.

Fada, Fada, eu quero saber quem eu sou. Quero saber qual a marca que quero deixar, e por quê. Não vou pedir pra ser uma menina de verdade, e nem única, porque isso eu já sei que eu sou. Tira o Demônio Auto-estima do meu ombro. Deixa que eu seja quem eu realmente sou.

O resto, ah, meu bem, o resto é puro resto. Puro e simples resto.

2 comentários:

Tatiana disse...

Matou a pau!
É isso mesmo, saber pedir!
Peça! Peça todo dia.
Espante todos os demônios sem graça e bobos e bestas e chatos de seu ombro.
E fique com o olho lá no horizonte. A Fada Azul pode aparecer a qualquer momento!
Lindo, lindo texto!

Juliana Hilal disse...

Jujuju,
Adorei o texto e a conversa ontem, que só veio confirmar em todos os sentidos o que eu já vinha ouvindo e matutando over and over, day and night.
Como pode esse questionamento virar o tema de tantas (quase todas) das nossas conversas nos últimos tempos?
Pode e deve, porque essa resposta resolve todas as outras questões. Tudo vira consequência natural dessa descoberta.
Faço meu o seu pedido, querida. Conversa sério com a sua amiga fada azul e pede para ela quebrar essa, vai?
Beijos