terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sonhos sonhos são...

Eu ando mesmo muito estranha. Às vezes parece que tenho 70 anos. Outras vezes, me vejo com 17. Eita.

Tive o sonho mais estranho. Estranho mesmo. Porque quando a gente sonha com uma pessoa que já sabia que estava na nossa cabeça, não é estranho. No fundo, o que a gente sonha já está lá em algum lugar no cantinho da nossa mente, o tio Freud já explicou isso muito bem, há mais de 100 anos atrás. Então sonhar com alguém que você sempre soube que queria é normal. O que assusta é quando você sonha com o inusitado. Com alguém pra quem você nunca tinha olhado diferente. Oh, céus, é assustador quando aquilo que desejamos e não sabemos vem à tona.

Socorro. Acho que estou pirando. Todos os meus outros sonhos estranhos assim pela vida deram ou quase deram em merda. Tenho um histórico desses sonhos. E daí eu meto isso na cabeça e pronto... fudeu. Não tinha olhado nunca pra pessoa, nem tinha tomado conhecimento. Pois é só sonhar que estou perdida.

E sonhei esta noite. Ou seja, hoje é o dia da descoberta. Medo. Medinho.

Folhetim Vagabundo - História 4 - capítulo 2

O início de mais uma história maluca você encontra aqui, ó! Clique!

Leu?? Então vamos à continuação...




Sábado, 10h54.

Um sol infernal.

Júlia Palermo vê chegar um carro preto, que ela sabia ser de Ricardo de São Thiago. Ele desce e acende um cigarro. Nenhuma palavra é pronunciada. Na segunda tragada de Ricardo, Mariana Franco aparece dobrando a esquina. Com um cumprimento de cabeça, os três se saúdam. Nenhum tira seus óculos escuros: Mariana, porque não consegue suportar a luz do sol depois da noite de ontem; Ricardo, porque precisa estar lindo; Júlia, porque suas olheiras estão enormes e ela não quer que tirem sarro de sua maquiagem que borrou (também, com esse sol dos diabos...). Mariana não fuma, por causa da ressaca.

Luana de Souza chega de carona com seu pai (pois sua mãe bailou até na noite passada e não se levantou ainda). Desce do carro sem óculos escuros, e os colegas podem ver suas mil piscadas por minuto. A primeira frase é pronunciada por Júlia Palermo.

- Vamos entrar logo?
- Não vamos esperar pela companheira Júlia Hilal?
- Ah, Ricardo, vamos entrar logo, quero sentar, estou cansada! E você sabe como ela é, vai chegar atrasada, mesmo... não é justo fazer a gente esperar no sol...
- Calma, calma, gente. Acho que é ela.

O barulho do carro de Júlia Hilal se faz ouvir. 10h58. Ela desce esbaforida, carregando a bolsa gigantesca a tiracolo.

- Desculpa, gente. Vamos?
- E a Pedra?
- Ah, ela ligou e disse que está fora do projeto. Muita correria com o CD.

Os outros já esperavam por isso. Nos últimos tempos, Pedra estava mesmo ficando mais doida do que já era. Bom, melhor mesmo ela direcionar suas forças para seus outros projetos. Que o que estava para se realizar dentro do grande galpão iria exigir toda a atenção e concentração dos membros ali presentes.

Ricardo e Júlia Palermo abrem com certo esforço as pesadas portas de ferro do galpão. Finalmente fora do sol, começam a tirar seus óculos escuros. O cheiro do desinfetante provoca náuseas em Mariana, mas ela segura a onda.

Os cinco líderes intelectuais fazem um círculo, em pé. Ricardo pergunta:

- Trouxeram?

Todos acenam com a cabeça, vagarosamente, apreensivamente.

10h59. Hora de começar.

Um a um, os líderes saem de seu lugar, vão até o centro do círculo e depositam cada um um objeto. Depois voltam para onde estavam.

Júlia Hilal deixa no chão três pacotes de Yakult, cada um com 6 frascos.
Júlia Palermo deposita uma sacola que contém uma manga podre, um dente de leite e a primeira página da Bíblia, rasgada.
Luana de Souza leva ao centro do círculo um estojo contendo instrumentos de dentista.
Mariana Franco coloca no chão um saco contendo penas de pombas.
Ricardo de São Thiago, finalmente, vai ao centro e lá deposita uma luxuosa edição do Kama Sutra.

11h01. Todos se entreolham. Hora de começar.


Começar o quê? Descubra amanhã, aqui.

sábado, 24 de outubro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 3, capítulo 6 - O Final, o Começo, O Recomeço.

O começo dessa história você encontra aqui, ó.


Ano terráqueo: 1980

Fogo. De seus dedos longos, o fogo se produz. Basta um gesto de Lúcifer para que o fogo surja por entre seus dedos brancos, subindo por suas unhas negras e brilhantes. Ele acende um cigarro. Mais um, dentre tantos, que não pode ser desfrutado como se deve. Impossível fumar como um mortal terráqueo. Nada se compara ao prazer humano de encher os pulmões de fumaça. Ele não tem pulmões. Assim não tem a mínima graça. Quantos cigarros mais seriam desperdiçados? Quanto tempo mais demoraria para convencer esse velho barbudo démodé de seus planos? Quanto tempo mais?

- Pensando bem, caro Lúcifer, não acho que essa seja uma boa ideia...

Deus estava preocupado em utilizar os argumentos certos para conseguir demover Lúcifer de seus planos. Sabia que, no fundo, o que o tinhoso queria era destruir o mundo que Ele criara, com tanto esforço, em 7 dias, e que vinha mantendo, a duras penas, há tantos anos. O grande sonho de Lúcifer sempre fora derrubar tudo e começar de novo, do seu jeito. Para mostrar que ele seria mais capaz. Mas dar o braço a torcer agora não parecia uma boa ideia. E Deus sabia que essa conversinha de trocar de lugar era só uma desculpa do Tranca Rua pra conseguir finalmente provar que ele era melhor. Era, na verdade, um grande truque. Para Lúcifer, era impossível destruir o mundo lá de baixo, do inferno. Seria preciso ter acesso à Sala de Controle, no céu, guardada pelos anjos virginianos, tão organizados e obedientes. E isso só poderia ser feito por Deus. Ele já pensara várias vezes em apertar o grande botão vermelho de emergência e começar tudo de novo. Mas isso seria mostrar a bunda ao inimigo, assumir que errara, que não fora competente. Por isso há tantos anos, segurava a barra e ia tocando o mundo como estava, mesmo. Havia o plano de destruir tudo finalmente em 2012, então seria preciso esperar até lá.

- Pense bem, meu querido, pense com a cabeça, Deus. Você poderia se divertir demais lá embaixo, só no joystick, comandando as forças do Mal. Eu é que iria penar um bocado por aqui, com esse bando de anjo chato, tendo que fazer o Bem. Mas eu prometo fazer bonito. Só por uns tempos...

Maldito velho encardido, não vai aceitar a proposta jamais. Será que Ele sabe que tudo o que eu quero é finalmente apertar o botão de emergência? Ter acesso àquela maldita sala e acabar com esse joguinho idiota? Vai demorar muito pra eu ter que apresentar o outro plano?

Mas Deus sabia, sim. Pô, ele era sagaz! Apesar de ser um velho, era muito inteligente. Afinal, criara o mundo, a Física Quântica, a Química Orgânica, as equações do segundo grau e a mente das mulheres. Pra Ele, entender as motivações de Lúcifer era fichinha. Difícil seria convencê-lo de mudar de ideia sem provocar uma guerra.

- Lu, veja bem, será que não há outra maneira de nos divertirmos? Sei lá, podemos pensar em outra peste, outra guerra, trazer logo o Michael Jackson pra cá, ao invés de só daqui a 30 anos, ou mandar o Elvis de volta, tem um monte de gente que acha que ele não morreu, mesmo...
- Outra guerra? Os planetas já têm guerras suficientes. Elvis faz muito sucesso por aqui, e ele ainda tem duas turnês pra completar lá no inferno, assim que seus anjos pararem de babar ovo nele e finalmente aprenderem as coreôs. Aliás, nunca vi anjos mais burros!! Meus servos já sabem todos os passos de todas as músicas dele de cor e salteado. Eu bem que falei pra você que aquela academia na qual você mandou eles fazerem estágio era uma merda... Também, né? Brasil??? Campinas??? Tenha a maldita paciência...
- Pois é, assumo o erro. Mas não se preocupe, em 2012 aquela academia vai ter um fim especial. Estou planejando com calma a destruição da...
- Ok, então eu tenho uma nova proposta. Algo de que podemos brincar até 2012, quando você finalmente vai reconhecer seu erro e se redimir.

Lúcifer não cabia em si de contentamento. Sabia que Deus não iria aceitar sua primeira ideia assim de cara. Por isso havia pensado no plano B. Afinal, ele não era tão burro assim. Pô, ele era sagaz! Ora, ele criara todas as doenças, o acorde trítono e estruturara toda a complexa engenharia da inveja, pra colocar no coração dos humanos. Ele sabia que Deus estava tão desesperado pra demovê-lo da ideia da troca que aceitaria sua outra solução sem pensar muito.

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Ano terráqueo: 2008

- Não, filha, esse não! Esse não realça seus peitos! Coloca esse aqui, ó! Melhor: eu tenho uma camisa ma-ra-vi-lho-as aqui que vai ficar linda em você. Deixa ver onde está... ah, aqui! Coloca lá no banheiro. Depois vem me mostrar.

Enquanto Maura Rúbia, com aquele sorriso idiota, corria para o banheiro para seguir suas instruções, Jacintha pensava. Pois é, parecia que aquela seria mesmo a fêmea ideal para seu filhote. Principalmente porque ela acatava todas as sugestões da sogrinha. Seria muito fácil continuar a controlar a vida de Matheus Ricardo, pois ela controlaria também a vida de Maura Rúbia.

- Deixa eu ver. Isso, linda! Agora passa esse perfume aqui. Comprei na Sacks. Chegou ontem. Maravilhoso, não é? Olha que buquê!! Passa esse óleo com glitter na perna, vai ficar show. Isso. Passa um pouco no meio dos peitos também. Pode passar. Isso! Não, esse batom, não! Usa esse outro aqui, meu, é novo. Isso, combina mais com a sua pele. E solta esse cabelo. Deixa bem bonito. Nossa, o filhote vai ficar doido! Tá usando a calcinha fio-dental que eu te dei? Hahahaha, ele vai enlouquecer! O filhote adora uma bunda como a sua. Ele nunca gostou muito das magrelas, sabe? Mas também não gosta das gordas. Maura, Maura, não vai descuidar do regime, heim?? Segura a boca e pique no lugar!! Agora vai. Tá linda.

Enquanto observava a tonta sair pela porta de seu quarto, Jacintha lebrava-se do nascimento de Matheus Ricardo. Fora mesmo um dia especial. Ela sofrera muito com as dores, mas se lembra até hoje da luz. Todos disseram que eram os remédios, mas ela vira a imensa luz branca que saíra de sua vagina quando o filhote viera ao mundo. Sabia que ele era especial, muito especial. Pena que tivesse se desvirtuado tanto no caminho, todas aquelas companhias erradas, o maldito curso de teatro, o maldito sapateado (ai, que arrependimento de ter permitido a matrícula!)... Mas Maura Rúbia estava ali para isso. Para consertar tudo.

Do lado de fora do quarto, Maura Rúbia pensava no quanto ainda teria que aguentar os mandos e desmandos de Jacintha. Mas valeria a pena. O que era um regiminho, o que era fazer as vontades da velha? Nada, perto da grana na qual botaria as mãos assim que se casasse com Matheus Ricardo e eliminasse mãe e filhote.


Ano terráqueo: 1980

Estava tudo preparado. Lúcifer fumava seu cigarro, observando as espirais de fumaça. Tentava manter sua expressão blasé, mas por dentro fervilhava de contentamento. O velho caíra direitinho em sua rede. Não era divertimento que Ele queria? Não era dar uma sacudida? Pois Ele teria uma sacudida e tanto pela frente nos próximos anos...

- Lu, então está tudo pronto. Acho que vai ser mesmo divertido.
- Certamente, meu caro. E em alguns anos terráqueos, nos veremos novamente e poderemos rir juntos de todas as situações que ocorrerem. Vai passar rapidinho.
- O toque de mestre de sua ideia foi esse lance da consciência perdida... Vai ser muito interessante não me lembrar de quem eu sou, e você não fazer a menor ideia de quem é...
- Sim... e podermos viver como humanos por alguns anos. Sentir na pele os problemas, aflições e delícias dos mortais. Diz, não vai ser uma diversão das boas?
- Claro, claro, foi uma brilhante proposta. Já está tudo combinado com o anjo Bironel. Ele vai ficar no meu lugar nesses tempos. Tenho plena confiança nele, e, depois, esses anos vão passar num piscar de olhos. Nada como um anjo aquariano pra manter o mundo em paz.
- Hitler também fará um belo trabalho durante minhas férias. Confio-lhe o inferno plena e cegamente.
- Então acho que chegou a hora. Pronto?
- Prontíssimo!

Fora uma ideia fenomenal, digna da grande mente poderosa do Djanho. Deus e ele tirariam umas pequenas férias no planeta Terra, como humanos (não aquela baboseira de Jesus, Pai, Filho, Espírito Santo, trindade, ser Uno, aquela coisa complicadérrima). Dessa vez, eles perderiam suas consciências e encarnariam em seres humanos, penetrando em sua alma desde o nascimento. Não saberiam por nenhum momento que eram, de fato, Jeová e o Belzebu. Ou melhor, o velho não saberia. Lúcifer usaria seus poderes para trancar a mente, de maneira a não permitir o apagamento de sua consciência quando passassem pelo grande Lava a Jato Divino. E então, seu período de folga na Terra seria muito melhor aproveitado e, com Deus como humano, seus planos seriam realidade em alguns anos.

- Os corpos estão prontos! As crianças vão nascer! Vocês precisam passar pelo Lava a Jato e descer imediatamente.
- Meu caro Lúcifer, nos veremos em breve!
- Sim, companheiro. Muito em breve...

Lúcifer jogou sua bituca fora. Finalmente provaria o gozo de se fumar um cigarro humano.

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Ano terráqueo: 2009

Empapado de suor e de mijo, Matheus Ricardo acordou. Tivera o sonho mais estranho. Precisava escrever, segundo instruções de seu terapeuta de anos. Pensou ainda que seria uma excelente ideia ler o sonho para Maura Rúbia, enfatizando a parte de que há mais coisas no mundo além da vontade divina. Quem sabe assim ela compreenderia... Mas precisava omitir a parte final. Aquela parte que o aterrorizara, sem que soubesse exatamente o porquê. No fim do sonho, em meio ao buraco negro e a Deus, Matheus Ricardo reconhecera os olhos de uma pessoa que chegara chegando. Ainda assustado, levantou-se e sentou para escrever, tentando tirar da lembrança a imagem de seus próprios olhos enfurecidos, cheios de ódio, que invadiram seu sonho, chegando chegando, para falar sabe-se lá o que com Deus, no meio daquela escuridão toda e daquele nada. Que raios isso queria dizer? A pessoa que chegava chegando era ele!!!

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Ano terráqueo: 2009

Carlos Frederico sorria consigo mesmo. Tirando um cigarro do maço, pensava que tudo estava saindo exatamente como o planejado. Deu uma sacudida para tirar a cinza que se instalara em sua calça Armani e sorriu por dentro com o resultado das coisas.

Onde estava o isqueiro? Essa era uma parte ruim de ser humano: não poder invocar o fogo com as próprias mãos. E sempre tinha algum lazarento que roubava seu isqueiro. Mas o resto todo compensava, pensou enquanto tragava deliciosamente a fumaça para dentro de seus pulmões.

Há quase 30 anos atrás, quando encarnara no corpo de Carlos Frederico, Lúcifer só pensava em aproveitar as delícias humanas. E, dentre elas, a maior de todas as delícias: o corpo de um homem. Com a consciência de tudo o que acontecera intacta, Lúcifer foi conduzindo sua vida desde pequeno para tudo o que havia de bom. Aproveitou todo o lado da moda e do glamour. E também toda a parte boa do sexo com homens e mulheres. Principalmente com homens. Tinha de dar o braço a torcer: aquela era a melhor invenção do velho lá de cima. Nada como o corpo de um homem, a barba roçando no seu pescoço, as mãos fortes em suas coxas, o hálito fresco em sua orelha. Mas o melhor estava por vir.

Assim que o corpo de Carlos Frederico completou 29 anos, ele foi em busca de Matheus Ricardo. Porque, veja bem, Lúcifer sempre tivera um sonho secreto. Mais do que destruir o mundo, queria poder realizar sua vontade. Tem gente que quer comer a Madonna. Ele, não. Ele queria comer Deus!

E comera. Ah, como comera! Comera gostoso! O pobre velho, sem fazer ideia de nada, repousava dentro da alma atormentada de Matheus Ricardo, que crescera com tendências homossexuais. Até aí, nenhuma novidade. Lúcifer sempre desconfiara dessa história de Uno, de assexuado. Para ele, Deus sempre fora gay. Isso explicava o mundo. O mundo sempre foi gay! Então, nada mais natural que Deus, dentro de um corpo humano, e sem as barreiras da divindade, deixar aflorar seu lado mais quá-quá-quá. Aproximar-se de Matheus Ricardo tinha sido a coisa mais fácil, ainda mais para o Tranca Rua, sedutor, sexy e glamuroso. E agora, que já tinha satisfeito sua vontade primeira, estava pronto para o grand finale de seu plano diabólico (pleonasmo delicioso).

Enquanto Matheus Ricardo terminava tudo com Maura Rúbia no restaurante, o Belzebu jogou fora sua última bituca como mortal e preparou-se para o passo derradeiro. Não valia Deus destruir o mundo em 2012. Não, a destruição tinha que ser por conta dele! Colocando o dedo no gatilho e empunhando a arma contra a têmpora do corpo de Carlos Frederico, preparou-se para voltar e cantou pra subir.

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O anjo Bironel andava de lá pra cá desesperado. Coçava a barba falsa, aquela cola incomodava pra cacete. Não sabia mais o que fazer para trazer Deus de volta para o céu. Já tentara enviar avisos em sonhos, mas o grande Lava a Jato era realmente poderosíssimo: Deus não conseguia entender os recados. Bironel não aguentava mais ver seu mestre tão humilhado.

O anjo Sensatel, pobre... Nem ele nem ninguém no céu sabia de nada. Todos acreditaram na magia divina e na maquiagem esplêndida do Diabo, e achavam que ele era realmente Deus. Mas agora estava sendo difícil segurar a barra. Pra disfarçar, dizia que estava agoniado com o mundo, e cansado da mesmice. O pobre Sensatel tentava argumentar, animando-o com a possibilidade de destruir o planeta Terra em três anos terráqueos. E Bironel fingia estar entediado, no seu papel de Deus. Mas realmente não sabia mais o que fazer. Iniciou uma conversa com o colega sobre o que os humanos fariam com o tempo que lhes restava. Mas, de repente, o ambiente foi invadido por uma ventania, redemoinhos de substância amorfa e não identificada de tom que misturava aurora boreal com pitadas de verde oliva. Deus, ou melhor, Bironel se agarrava a uma nuvem, sua saia era levada pelo vento, ele viu Sensatel ser levado pra longe gritando “Segura na mão de Deus e vaaaaaaaai...”, e então PUFT! Tudo que existia sumiu em um buraco negro. A total inexistência ali, Bironel, no seu papel de Deus, e um buraco negro.

Alguém chegou realmente chegando.

- Mestre, finalmente!! O que aconteceu?? Por que demoraste tanto??
- Onde está Lúcifer??
- Lúcifer? Ué, por aqui ele não passou!
- Claro que passou, sua besta quadrada! Quem você acha que fez isso??

O som das botas de Lúcifer ecoou no meio do nada, e sua risada maléfica se fez ouvir.

- Huahuahuahuahuahua... Ponto para mim!

Bironel tentava segurar Deus, mas estava difícil. O Criador queria era voar no pescoço do Djanho.

- Admita, seu velho, que dessa vez eu ganhei!!
- Como assim? O que está acontecendo? – Bironel não estava entendendo nada. – Eu não te vi passar por aqui!
- Claro que não. Você e os anjos virginianos estavam muito ocupados com Michael Jackson. E ainda assim não pegaram o MoonWalk. Tcs, tcs, tcs...
- Lúcifer, você pode me explicar o que está havendo??
- Simples, Criador... depois de me livrar do corpo de Carlos Frederico – e aqui Deus sentiu um arrepio, misto de tristeza, amor e espanto - , subi pra cá e apertei o botão de emergência. Agora quem tem uma pergunta sou eu: o que você está fazendo aqui? Você deveria ter sumido junto com o buraco negro!
- Acontece, caro Belzebu, que a vida de Matheus Ricardo, a minha vida, estava um bololô só. Ele, eu, enfim, não aguentava mais! Antes mesmo da picanha argentina chegar, fui ao banheiro e enfiei uma faca de carne em meu peito, no peito de Matheus Ricardo... Por isso que eu estava pensando que ares de inexistência me fariam bem. Queria desistir da vida... No sonho que Bironel me enviou, com a destruição do mundo, tive a ideia de destruir minha existência. Era só um mortal, não podia destruir tudo, mas podia me destruir. E então enfiei a faca. Mas isso aconteceu exatamente na hora em que você apertou o botão, provavelmente... Voltei a ser Espírito e subi imediatamente.
- Hum... droga. Bom, acontece... Tenho a eternidade pra tentar de novo...
- Ai, você me cansa...
- Manda vir aí um bloody mary.
- Não tem mais pôrra nenhuma!! Você destruiu tudo!!
- Ah, é. Bom, vamos ter de reconstruir.
- Não, eu tenho uma ideia melhor. Vamos apertar o control + Z e desfazer tudo.
- Isso é possível?
- Claro. Pra Deus, tudo é possível. Eu sempre tive dúvidas sobre destruir ou não tudo. Então deixei esse sistema de stand by, indestrutível, em uma caixa de veludo vermelho bordado com fios dourados – disse Deus, enquanto a caixa flutuava para ele, a seu comando.
- Hum. Tá. Ah, que coisa mais sem graça. Então vai voltar tudo como era?
- Sim. Maura Rúbia ficará sem seu noivo, e Jacintha sem seu filhote, mas o resto continuará normal.
- Não exatamente normal. Eu ganhei essa partida, e mereço o prêmio.
- Tá, tá, tá... O que você quer dessa vez?
- O axé vai ganhar o mundo, e as rádios só vão tocar isso.
- Putz... tá. Que mais?
- O Fausto Silva vai se eleger presidente do Brasil.
- Você só pensa no Brasil... e o resto do mundo?
- Vou pensar... enquanto eu penso, aperta aí o control + Z. Que vai acontecer com os humanos?
- Pra eles vai ser como se nada tivesse acontecido.
- Então borá lá que tô seco por meu Bloody Mary – disse o Capeta, preparando-se para acender seu cigarro com as mãos.

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No enterro de Matheus Ricardo, Maura Rúbia foi a que mais chorou. Fez escândalo, queria se jogar no caixão e ir junto. Jacintha não derrubou sequer uma lágrima. Saíram do enterro direto para um bar.

- Fala, Jacintha, que decisão foi essa que você tomou?
- Eu tinha decidido me mudar sozinha pra Nicarágua. Depois de ver Matheus Ricardo se acabando por Carlos Frederico e de você vir me infernizar aquela noite, decidi desistir de tudo e ir aproveitar a vida. Mas agora tudo mudou.
- Por quê? Você não vai mais?
- Vou. Mas não sozinha. Quero que você vá comigo. Podemos viver felizes e tranquilas por lá, desfrutando do meu dinheiro, pegar vários moçoilos, jogar tranca o dia todo... como nos velhos tempos. No fim das contas, acho que o filhote atrapalhava nossa amizade...
- Poxa, Jacintha... é, pode ser super bacana. Eu vou.
- Vamos hoje mesmo?
- Eu só quero fazer uma coisa antes.
- O quê, meu bem?
- Vamos ao show da Claudinha??
- Claudinha Leitte? Ah, você não sabe? Ela vai estar em turnê na Nicarágua...

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Maura Rúbia e Jacintha fazem o check-in no aeroporto da Cumbica, depois de comprarem a Nova do mês. Um verme sai de dentro do umbigo do corpo de Matheus Ricardo. No céu, Michael ensina a coreografia de Thriller para os anjos do 47º batalhão. No inferno, Elvis é aplaudido depois de tocar Love me Tender.

Lúcifer toma seu bloody mary pensando na próxima estratégia. Vai ser difícil passar a perna no velho novamente. Mas ele há de conseguir. Pô, ele é sagaz! Afinal, ele criou as enchentes em São Paulo, os Hanson e o Bush!

Deus observa os anjos fazendo os passos de monstro, pensando na sua defesa pra próxima vez. Vai ser difícil se proteger dos golpes do Tranca Rua. Mas ele há de conseguir. Pô, ele é sagaz! Afinal, ele criou o Mc Donald’s, o Miles Davis e o corpo masculino!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Aula de xadrez


Você tem as suas peças, e eu tenho as minhas. E a intenção é movê-las. No meu caso, mover as minhas até minar as suas, sumir com elas desse quadriculado. Uma a uma, ir destruindo sua resistência, jogando fora suas barreiras. Penetrar no seu território, fugir do campo minado, eliminar os peões do caminho, conseguir finalmente pegar uma peça de maior valor. Pegar sua torre... seria ideal. Montar no meu cavalo e matar o seu. Encurralar seu bispo, comer sua rainha. Ameaçar seu rei, deixá-lo tremendo de medo, fugindo quadradinho a quadradinho, apavorado. Mas antes, tem o clima. Ninguém come ninguém, ninguém come nada. Os peões se movimentam tímidos. As jogadas demoram eternidades. Ninguém quer ser o primeiro a perder uma peça. Que bobagem, meu bem, porque pro jogo evoluir isso tem que acontecer, mais cedo ou mais tarde. E acontece. Armadilhas, iscas, alçapões. Vem comer meu cavalo que eu papo o seu bispo. Pega meu peão que eu ataco a sua torre. E você come a minha rainha. Trocas. Sobra espaço no tabuleiro pras peças deslizarem, dançarem, num vai e vem, avança e recua, bispos bailando em diagonal, cavalos trotando em L, a grande dama do jogo, dona do salão, dançando por onde quer. Olha no meu olho com cara de raiva porque ameacei sua torre, olha. Sorrio pra você porque você pensou que eu ia cair no seu joguinho e te entregar meu bispo branco de bandeja. Não assim tão fácil. Não me desconcentra, que eu fico boba e perco. Entrego minha rainha de mão beijada, facinha ali no meio das torres, esperando o ataque do peão que não veio. Mas te pego logo mais, deixa estar. Quero amordaçar seu rei e encurralá-lo no cantinho do tabuleiro, pra depois gargalhar. Mas meu rei também tem medo de você, das suas torres ferozes e dos seus peões invocados. E assim vamos jogando. Não tem parceiro aqui, à primeira vista, é um contra o outro, um querendo pegar o outro, um fugindo e o outro atacando, um avançando e o outro recuando, em turnos. Dá vontade de gritar “entrega o jogo logo de uma vez, derruba esse rei e deixa que eu pegue todas as suas peças só pra mim”, mas o prazer do jogo pode ser melhor do que o da vitória. Dá vontade de gritar “então vem logo, coma todas as minhas peças, joga meu rei no chão, eu me entrego”, mas, ah, que bom jogar. Vamos declarar um empate? Nem eu ganho, nem você ganha. Pode ser assim? Deixa suspenso, deixa no ar, deixa a tensão assim: qualquer dia, te pego na curva.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Se o amor aparecer, diz que não tô.

Quer saber? Eu tô é muito de boa com esse lance todo de amor. Já deu pra mim. Tô bem de boa mesmo. Não tô a fim. Até porque, pra mim, isso não existe. Não, não existe. Pra mim nunca existiu. E talvez não exista mesmo.

Que me desculpem os casais apaixonados e felizes, e os solteiros que ainda acreditam no amor. Mas pra mim essa história é furada. De verdade.

Pra mim, nunca foi amor. Foi posse. Foi amizade confundida. Foi tesão, foi carência, foi vontade. Foi doença (foi, principalmente, doença). Mas amor não foi. Então pode ser que nunca seja, pelo menos pra mim.

Tô eu passando minha saia branca na casa do meu amigo, pra sair. O ferro de passar roupa dele decidiu que me odeia, que que eu posso fazer? Começou a cuspir um treco marrom pelos buraquinhos de onde deveria sair água. Meu outro amigo vem me socorrer. Querido. E tira um sarrinho porque a saia já estava um pouco suja. Tava mesmo. Hahaha. Ok. E ele solta “Imagina, um gatinho, você joga essa saia imunda no chão do motel.” Primeiro, eu ODEIO motel. A não ser com os amigos. Segundo, que gatinho, cara-pálida?? Não tô meeesmo a fim de arrumar gatinho nenhum. Terceiro, sem chance de eu arrumar um gatinho e jogar a saia no chão do motel, porque, além de odiar motel e de não estar querendo um gatinho, não existe a mínima possibilidade de eu ir com um gatinho pra motel nenhum. Quarto: se eu precisar ficar me preocupando com a saia, popará. Aí é que não to a fim mesmo. Não gostou? Dá outra. Lava essa. Foda-se. Que eu já tenho muita coisa na cabeça pra me preocupar com isso.

Judiação. Meu querido amigo não falou por mal. Eu é que me irrito fácil, ainda mais com esse assunto. Porque eu tô de boa mesmo. Tranquila. Tranquilex. Não quero dividir minha vida agora. Não quero presenciar outra pessoa comendo (hahahahahaha), não quero acordar com ninguém do meu lado, não quero ter que ligar pra alguém depois dos meus ensaios, ou nos dias em que chego em casa depois do trabalho, morta. Não quero que me atrapalhem nos meus programas com meus amigos, não quero ter que deixar de ir em lugar nenhum e nem quero ter que ir em lugares que não estejam na minha programação. Não quero abrir concessões (posso?). Não quero ter que aprender de novo como se anda de mão dada. Eu tenho duas mãos. Só. E elas estão ocupadas no shopping, carregando sacolas, ou simplesmente livres ao lado do meu corpo. Não quero ninguém me dizendo que preciso emagrecer ou engordar, não quero ninguém querendo saber que horas vou chegar, não quero ter que ficar escolhendo roupa pra impressionar ninguém, não quero ter que medir minhas palavras, meus olhares, o volume da minha gargalhada. Não quero me preocupar com dia dos namorados, natal, aniversário. Não quero, não quero, não quero ninguém fingindo estar do meu lado. Não quero ninguém na minha frente, não quero ninguém atrás de mim.

Oh, menina, que coisa mais triste. Isso é por causa dos modelos errados que você teve, bobinha. O amor existe. Taí. E chega de repente. E pode ser lindo. Você está parecendo uma velha. Nossa, quanta amargura nesse coração... Nossa, que horror. Nossa, nossa, nossa.

Pode até ser, gente. Mas tô realmente me sentindo bem assim, desse jeitinho. Eu quis por tanto tempo alguém, um alguém pra dividir, um alguém pra mim, do meu lado. Mas eu nem me perguntava se eu queria de fato. Agora eu sei. Por enquanto, quero não. Tenho muita coisa pra fazer, muita coisa pra pensar, muita coisa pra ser. E desse jeito tá bom demais da conta.

Se o tal amor existir mesmo e bater aí na porta, diz que hoje não, obrigada.

Horário de verão de cu é rola

Não adianta. Eu acordo 6h20, mas meu corpo sabe que são 5h20 na verdade. Eu abro a janela e olho pra fora e o dia tá escuro. Dia o caralho. Noite. 5 da madruga é noite. E todos os relógios da casa podem dizer que já são 6h20, mas meu corpo sabe que é mentira. E eu já acordo mal-humorada. Pôrra.

Na hora de dormir é a mesma coisa. 11 da noite. Preciso dormir agora. Mas meu corpo, espertinho, sabe que são só 10 da noite. E ele não tem sono, mesmo eu tendo acordado 5 da matina. Um cu.

Fora a hora que perdemos por adiantar o relógio na madrugada do domingo. Eu só vou recuperar essa horinha sagrada daqui a 3 meses. Até lá, só me resta conformar-me... Mas eu não me esqueço dela... nas horas de sono durante a tarde, em pleno expediente, meus olhos querem descer, e me dão a desculpa daquela horinha perdida. Merda.

“Ah, mas que delícia, a gente sai do trabalho e ainda tá claro!” Grandes merda! Eu não sou criança pra ser enganada. Saio do trabalho, tá claro, mas já são 7 da noite. E daí??

Desculpem a ranhetice, mas eu realmente ODEIO horário de verão.

Meninas que eu odeio

Sambão comendo solto. Tarde boa de domingo, quintal de casa em Sousas, cervejinha gelada no copo. Uma menina sambando na minha frente. Odeio essa menina. Por que, mesmo? Que que eu sei dela? O nome. As profissões (três). Sei também que ela dava em cima de um ex-namorado meu. Mas quem me contou isso?? Ele.

Até então, ela era pra mim um nada. Eu nem sabia da sua existência. E ele chegou contando que ela dava em cima dele. Ódio mortal imediato. Juras de morte, cara feia, olhar fuzilante, fatal. E agora, quase três anos depois, eu ainda odeio essa pobre coitada.

Olhei a tal sambando ali na minha frente e comecei a pensar. Pode ser que ela seja muito legal. Pode ser que não, mas eu nem sei. Nem sei quem ela é de verdade. Pode ser uma piriguete mesmo, uma biscateira. Mas pode ser bacaninha. E é feinha, coitada, que bicho sou eu, que bicho era eu que não confiava no meu taco desse jeito?? Que bicho era ele que precisava se autofirmar desse jeito? Instigando meu ciúme doentio? Que merda esse cara fez comigo pra eu odiar essa pobre coitada até hoje? Meio que sem motivo?

Olhei ao redor e achei outra menina que eu odiava, mas dessa eu nem sabia o nome. Mesmo. Olhei pra cara dela e pensei “Eu sei que odeio essa aí, mas nem sei o nome dela. Sei que tem alguma coisa a ver com o outro lá, provavelmente dava em cima dele também”. Que monstruosidade. Eu nem sei quem é essa pobre.

Decidi que não quero mais odiar as pessoas à toa. Sem conhecê-las. Sem motivo. Já odeio muita gente. A lista não precisa aumentar assim, ainda mais por causa de um desequilibrado que não faz mais parte da minha vida há tempos.

Meninas, vocês estão perdoadas do meu ódio. Só não me deem motivo, ok?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Assinando contratos

Eu ouço muitas coisas. A mais nova é que estou assinando contratos com a vida. Na opinião de meus amigos, cedo demais. Não sei se é a merda do retorno de Saturno, se é uma fase de questionamentos, não sei. Enfim, hoje quem fala por mim é o poeta, não eu. Que ele sabe mais.

Parece triste, mas não é, não. Não por enquanto.

Os Ombros Suportam o Mundo

Carlos Drummond de Andrade


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Folhetim Vagabundo – História II – Capítulo I – O fim e o início

Para ler ouvindo isso: http://www.youtube.com/watch?v=tXXHYX7zk1c



Senhor Odair,

Conforme conversamos no funeral do senhor seu pai, envio-lhe a carta com as últimas palavras do pobre homem. Algumas semanas antes de morrer, o Sr. Honório confiou à direção da clínica esta carta, pedindo que somente fosse entregue ao senhor (e ao seu irmão Cosmo) após sua morte. Expressando nossos profundos pêsames novamente, desejamos que a paz possa reconfortar seus feridos corações.

Atenciosamente,
Matheus Criandello,
Diretor da Casa de Repouso Feliz Regresso.




Holambra, 2 de novembro de 2006
Casa de Repouso Feliz Regresso

Aos meus filhos Odair e Cosmo

Queridos filhos, escrevo-lhes mais uma vez, quem sabe a última, pois por muito tempo acalentei em minh’alma a esperança de que seus corações fossem tocados e de que vocês viessem finalmente me visitar. Todas as noites, durante esses 15 anos em que já estou aqui, pedi a Deus para que colocasse o perdão nos espíritos de meus amados filhos, e para que os fizesse ver que todo ser humano tem o direito de errar e de se retratar, de reconhecer o erro, a culpa, por mais que possa ter ferido os sentimentos e os corpos daqueles a quem um dia amou. Orei durante esses longos 15 anos para que vocês me perdoassem um dia, para que vissem que eu estava fora de mim naquela maldita tarde quente, para que entendessem que eu estava tomado por algo que não era eu. Rezei todas as tardes para receber a visita alegre de um de vocês, ou quem sabe de minhas noras e netos. Mas a solidão tem sido minha única companheira nesses anos todos.
A solidão e minha fértil imaginação. Passei dias e dias imaginando como vocês estariam vivendo, como estariam gastando a minha fortuna, enquanto eu estava aqui encarcerado nesta clínica, neste asilo, neste inferno. Imaginando suas esposas batendo carros comprados com meu dinheiro, seus filhos estudando em escolas caríssimas pagas com meu dinheiro, vocês mesmos esbanjando meu dinheiro em uma vida social que me foi negada, já que estou aqui, preso. Imaginei também a ânsia de vocês por ver-me morto, para finalmente poderem colocar as mãos em toda a minha fortuna, e não somente na pequena parte que lhes cabe durante o tempo em que eu estiver vivo. Acalentei até muito pouco tempo atrás o sonho de vê-los entrando por esse gramado, felizes, de mãos dadas, dizendo que me perdoavam e que me levariam de volta à vida. Mas nada disso aconteceu.
Minto quando digo que a solidão tem sido minha única companhia. Houve também uma nova companheira, que chegou com força total nesse último ano de minha vida. Ela é bonita, e tem um vigor fenomenal, apesar de ser um pouco fria. Seu nome é Vingança. Dizem que se deve comê-la fria. Quando estiverem lendo esta carta, meu corpo já estará frio, e minha Vingança estará pronta para ser saboreada por mim, onde quer que eu esteja.
Mas vamos logo ao que interessa: MEU TESTAMENTO. Não é somente isso que vocês esperam? Imagino até que tenham pulado os parágrafos anteriores, na esperança de finalmente saber quem leva meu rico dinheirinho. Pois bem, seu bando de filhos da puta: vocês vão ter de penar um bocado até chegar a ele. Tempo não me faltou aqui (nem tampouco motivação) para criar uma bela de uma caça ao tesouro, digna de filmes que as putas das suas esposas devem adorar ver, nos motéis em que os chifram com seus amantes que devem ter paus muito maiores e mais potentes que os seus, uma vez que nenhum de vocês puxou a mim no quesito dote. Se vocês quiserem colocar as mãos na grana, vão ter que comer o pão que o diabo amassou e recheou com merda mole e sangrenta.
Nesta carta, vocês receberão a primeira pista para a caça ao tesouro que preparei para vocês, seus bostas. Cada pista levará a outra, espalhada pelo mundo real com a ajuda de empregados da clínica, devidamente pagos. Vocês passarão por tarefas humilhantes, por lugares imundos como a cara de vocês, até chegarem à minha herança. Porcos que são, tenho certeza de que não se negarão a nada para ter acesso ao dinheiro. Minha dúvida é só uma: terão vocês cérebro para decifrar as pistas? Veremos, meus caros, veremos...
A primeira pista vai agora. Preparados, seus veadinhos? Vamos lá:

Do caralho pinga pôrra
Da buceta pinga mel
Das vacas pinga leite
Das flores pinga o mel

Essas moças sabem disso
Sabem disso e muito mais
Encontrem-nas na terra do pau grande
E a próxima pista pode lhes trazer paz


Gostaram, seus animais? Honrem meu nome e meu sangue e ponham a cabeça pra funcionar. Peçam ajuda pras biscates que vocês desposaram. Elas entendem do negócio como ninguém, e podem até mesmo conhecer algumas das moças que citei.
Mas estou me alongando. Adeus, seus pulhas. Daqui do inferno vos contemplo.

Com amor,
seu pai,

Honório Nascimento Villas Boas.



Acompanhe o segundo capítulo dessa história amanhã, terça-feira, no blog da Tatiana Rocha, aqui, ó!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Selva

Meu aluno foi esfaqueado terça-feira, numa tentativa de roubo de seu celular. Não, isso não aconteceu em um bairro afastado, na periferia, de noite. Eu leciono em uma escola particular, no centro da cidade, e isso ocorreu ao meio-dia, debaixo de um puta sol. Ele está na UTI.

O adolescente Renan Cunha de Souza, de 16 anos, foi esfaqueado na tarde de ontem durante tentativa de assalto no Viaduto Cury, no Centro, em Campinas. Ele cursa o primeiro ano de informática no Colégio Politécnico Bento Quirino e voltava para casa. No dia anterior, Souza tinha ganho um i-Pod de presente de aniversário. Souza está internado em estado grave na UTI do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti e, segundo boletim médico, corre risco de morte. Até o fechamento desta edição, nenhum suspeito havia sido preso.
http://www.puccamp.br/servicos/detalhe.asp?id=47860


http://cosmo.uol.com.br/noticia/39013/2009-10-07/pm-prende-acusado-de-esfaquear-estudante.html

Puta que pariu. É tudo que eu consigo pensar. Que merda de mundo é esse? Se a gente pensar muito, revolta. Revolta demais.

A gente ouve histórias como essas todos os dias. Dá no jornal, alguém comenta no salão de beleza, a mãe chega contando. E a gente se sente mal, mas passa. Porque vira normal. Mas pôrra, ele é meu aluno. Eu o vejo todos os dias. E ele é uma gracinha de aluno. Notão na minha matéria, escreve bem, super comportado sem ser nerd. Uma graça. Imaginá-lo nessa situação, imaginar os dois colegas que estavam com ele, que também são meus alunos e que também são duas graças, isso me deixa meio tonta. Cambaleando. Enojada, com ânsia.

Existe alguma justiça nisso? Existe alguma justiça? Esse mundo tem muita coisa linda, mas tem muita merda também. E pensar nesse lado me entristece.

A classe desse aluno é um inferno, eu sempre brinco. São quase 50 alunos na sala, um monte de moleques, eles não param um minuto, muitos não se interessam por nada. Uma sala difícil de dar aula. Eu vivo dizendo que não vou pegar essa turma no ano que vem. Mas agora estou até pensando de novo. Porque eu quero poder fazer a minha parte, poder fazer o que eu puder fazer de bom por esses alunos, esses três em especial, e todos os outros também. Colaborar com o que eu posso, levando ideias que eu considero importantes, indicações de coisas importantes, diretrizes pelo menos. Se eles vão seguir ou não, aí eu já não posso controlar mais.

Renan, luz pra você, meu querido. Estou esperando ansiosa pra ler suas redações de novo, pra corrigir suas provas e marcar com orgulho aquele 9 bonito. Pra te ver no seu lugar de novo, que é ali com a gente, com os seus colegas, sorrindo, aprendendo, ensinando. Volte logo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

TPM + Trabalho

Meu, eu ando morrrrta. Morrrrta mesmo. De bode total. Tô sem tempo nem pra peidar, mas vim aqui desabafar. Trabalho, trabalho, trabalho. Trabalho atrasado. Não vou conseguir entregar as notas a tempo. E fica aquela pressão, fora e dentro de mim. Tenho coisa pra fazer. Droga. Não estou livre, tenho coisa pra fazer.

Hoje mesmo: trabalho de manhã, trabalho de tarde, trabalho de noite. Foda pra caralho. Queria jogar um baralho com meus amigos. Queria bater um papo, tomar uma breja. Mas não vai rolar. Trabalho, trabalho, trabalho. Tá foda.

E TPM. Tudo junto. Me segura nesse feriado. Que eu quero a morte. Não me vem acordar cedo pra aproveitar o sol, aproveitar o dia. Eu quero aproveitar a minha cama. Pôrra.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Folhetim Vagabundo - a estreia!!!

People:

Novidade na área. Começou hoje o projeto
Folhetim Vagabundo. Nele, seis blogueiros amigos irão escrever uma história a 12 mãos, cada um colocando um capítulo a cada dia da semana.

A Luana Dalmolin - http://impressoesemdesalinho.blogspot.com - começou a nossa primeira história hoje.
Amanhã, quem continua sou eu, aqui no meu blog - http://derrubandoparedes.blogspot.com.
Quarta, vem a Tatiana Rocha - http://coisarara.blogspot.com/ - , continuando a história.
Quinta é a vez de Eduardo de Santhiago - http://portudoquesinto.blogspot.com.
Na sexta, quem quebra tudo é a Marina Franco - http://olhosrecemnascidos.blogspot.com.
E no sábado, a Juliana Hilal - http://retalhosdejulianahilal.blogspot.com - vem pra finalizar a nossa primeira história.

No domingo a história ganha um título e irá inaugurar o blog Folhetim Vagabundo, onde publicaremos semanalmente nossas insanidades conjuntas. E na segunda-feira tem início outra história, com nova ordem dos blogueiros.

Vai perder?? Lógico que não! Acesse o primeiro capítulo da primeira história do Folhetim Vagabundo e não perca nem mesmo um capítulo desse projeto que promete. Vai lá:
http://impressoesemdesalinho.blogspot.com/2009/10/folhetim-vagabundo-estreia.html

Ah, e ajude a divulgar, ok?

Beijos e boa leitura!!

Folhetim Vagabundo - Capítulo 2 - 47

Este é o segundo capítulo da história que começou ontem em:
http://impressoesemdesalinho.blogspot.com/2009/10/folhetim-vagabundo-estreia.html

- ... então os trezentos reais devem cair na sua conta lá pelas 4 da tarde.

Ricardo. Ainda falando. Como fala, esse idiota...

Ele já fechou as cortinas. Oba, uma noite de sol. As melhores noites são sempre as noites de sol.

Era preciso arrumar tudo, deixar tudo preparado.

Desligou o telefone sem ao menos responder às últimas palavras de Ricardo. Se ele ligasse de novo, não atenderia. Desligou o celular. Falta de bateria é mesmo a desculpa perfeita para esses momentos.

Um banho, era isso. Um banho longo e demorado, quente, até que o vapor preenchesse todo o banheiro e entrasse pela mente, limpando, levando a dor, os resquícios da bebida, as dúvidas e as lembranças dolorosas. A culpa, principalmente a culpa.

A esponja branca passeava pelo corpo sem pressa, sem pressão. Brincava nas pernas, na barriga, a espuma escorria pelos tornozelos. Ao chegar aos cortes profundos do antebraço esquerdo, a esponja se tingiu de vermelho, um vermelho guache, misturado com a água. O sabonete ardia, gritava dentro das feridas abertas na pele, os 47 cortes milimetricamente e precisamente desenhados. 47, ainda. 47 pequenos cortes, finos cortes, retos cortes, lindos cortes. Ainda faltava muito. Mas nesta noite teremos sol.

A toalha preta não mancha com o sangue. Tinha sido bom ter escolhido essa dentre as outras. Os pés deixam manchas d`água no assoalho, mas elas secam. No fim das contas, grande parte das coisas da vida passa. Algumas coisas ficam.

Ainda havia muito pra fazer. Era preciso arrumar tudo, deixar tudo preparado.

A campainha soa. Uma vez. Quatro e quarenta da manhã. Ricardo? Ele não teria o desplante... Seria Ana? Não, Ana não. Hoje não. Porteiro filho da puta, dorme de babar e qualquer mané entra nesse prédio a essas horas...

A campainha soa. Outra vez. 15 segundos pra levar as garrafas e o copo (vazios) para a cozinha, tirar esse cinzeiro imundo daqui da sala, esse cheiro já está dando enjoo, enfiar a grande faca de cozinha debaixo do sofá. Não dá tempo de limpar o sangue, é muito sangue, deixa essa toalha aqui por cima, escondendo. Quem quer que seja que toque a campainha a essas horas merece que se abra a porta nua. Mas e os cortes?

A campainha soa. Outra vez. O roupão amarelo cobre o corpo. Os cabelos pingam, embaraçados ainda. Uma última olhada para a sala.

Chave, maçaneta, porta aberta.

Morena, cabelos negros cuidadosamente desajeitados, seios pequenos, pernas e braços finos, porém bem delineados. A mulher do quadro! Seu olhar fixo não deixa passar nenhuma emoção. Estende os braços delgados e, em suas mãos, há uma caixa de veludo vermelho, bordado com fios dourados. Uma gota de sangue cai no chão. Sangue escuro, grosso, brilhante. E vem de dentro da caixa.


O resto? Só amanhã, no blog da Tatiana Rocha, aqui, ó:
http://coisarara.blogspot.com/2009/10/folhetim-vagabundo-capitulo-3.html