sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Óculos

Eu sei que estou há um puta tempo sem atualizar isso daqui. Eu sei. Desde o ano passado (hahaha, piadinha infame). Eu queria ter escrito sobre tantas coisas, mas tenho sido acometida de uma espécie de preguiça-mór (ah, vá! Eu?). É, preguiça. Acho que tenho que recobrar o jeito. Retomar o jeito. Wathever (só quero ser feliz).

Meu sobrinho nasceu e é a coisa mais fofa desse mundo. Ele mora comigo e eu adoro. Pego todo dia nos meus braços essa coisa redondinha e cheirosa, e fico com o cheiro dele em mim. Ele nasceu com a cara do Jean, mas agora tá ficando mais gordinho e de vez em quando tem cara de Mari. Ele chora, ri, mama, caga, dorme e encanta todo mundo cada vez que move um músculo. Ou mesmo dormindo, parado. Meu pai agora é o vôvo (isso mesmo, vôvo, com o acento no começo. Ele que inventou), minha mãe é a vovó babona (quem diria, minha mãe com recém-nascido no colo), minha irmã é a mãe leoparda e eu sou a tia maluca. Some things never change. Ele é um anjinho, mas vai ser da pá virada. Delícia. Ele fez um mês e eu não estava aqui. Tava na praia.

Ah, a praia. Foi maravilhoso ver o mar, pisar na areia, tomar o sol na pele, tomar banho de piscina, bater papo com amigos, dar risada até doer a bochecha, fazer caça ao tesouro, balançar na rede, tentar ler meu Saramago novo, fumar que nem uma biscate, ter insights sobre mim e sobre o mundo, e sobre o modo como eu vejo o mundo e, principalmente, sobre o modo que eu acho que o mundo me vê, o que pode ser totalmente errado, mas é o que eu vejo. Entendeu? Papo pra outro post.

Amanhã vou fazer a cirurgia de correção da miopia. Quer dizer, há uma chance de ser amanhã. Então já vou escrevendo. Eu quis isso por tanto tempo, me livrar dos meus óculos. Ver o mundo sem essas lentes, ser vista pelo mundo sem as lentes, principalmente isso. Não tô nem ansiosa nem preocupada, nem com medo. Vamos ver na hora. Na hora h. Vamos ‘ver’ na hora, hoje estou mesmo infame.

Eu tive um pensamento besta de querer ver uma pessoa antes da cirurgia. Pra, se tudo desse errado, se eu ficasse cega de repente, ter guardada na mente uma imagem bonita. Uma imagem linda. Mas isso é uma besteira sem tamanho, nem sei por que estou escrevendo isso aqui. Sei lá, aqui é o lugar das besteiras, daquelas que eu não comento com as pessoas por vergonha, ou pra não cansá-las. Foi uma coisa melodramática. Claro que não vou ficar cega, der. Claro que essa imagem seria bonita, mas por um momento. Que a beleza é tão subjetiva. Eu que sei. Pronto, vou olhar pro meu sobrinho. E seja o que Deus ou a Deusa quiserem.

Não sei até que ponto isso vai realmente mudar a minha vida. Eu espero que mude. Pra melhor, obviamente. Uso óculos desde os 13 anos. 14, quase 15 anos vendo o mundo por detrás dessa armação, sendo vista com ela, e imaginando que imagem tem de mim (ai, que difícil não usar o acento... maldita reforma...) as pessoas que me veem (ai, essa doeu, mas eu acostumo). E imaginando que, se eu não usasse óculos, as coisas seriam diferentes. Talvez sim, talvez não. Vamos descobrir. Acho que muda principalmente pra mim. Principalmente dentro de mim. E afinal, pôrra, quem é a pessoa mais importante da minha vida? Sou ou não sou eu, caralho?

Claro que sou.

Acho que uma certa Ju morre amanhã. A Ju desde os 13 anos. Aquela que eu acostumei a ver no espelho, e que todos acostumaram a ver. Engraçado, pensando bem, poucas pessoas me viram sem óculos já. Sem óculos e sem lentes. Sem ver nada, e sem me importar. Que eu levanto de óculos, praticamente. Não vou na balada sem óculos (aliás, não vou na balada ponto, mas vocês me entenderam, espero). Não faço nada sem óculos. Canto de óculos. Dou aula de óculos. Dirijo de óculos (pelo bem da população campineira). Os momentos em que fico sem óculos de boa são na cama. Antes de dormir, lendo. Ao acordar, espreguiçando. Ou em outros momentos, na companhia de alguém. Sabe aqueles momentos bons, aconchegantes, de ficar abraçado batendo papo? Ah, vá, dá pra contar nos dedos essas pessoas. Lembro de um namorado que era (é) mais míope do que eu, e a gente ficava deitado e daí começava o Jô, e estávamos os dois sem óculos, e queríamos saber quem era o entrevistado, mas nenhum dos dois queria pôr óculos... comédia, ficávamos os dois espremendo os olhos, tentando ver quem era. Tempo bom. Coisas bobas, pequenas, de casal. Eu queria saber por que diabos é que desses olhos, agora, aqui atrás das lentes que uso pela última noite, tem água brotando. Eu sou mesmo uma boba.

Talvez eu esteja com medo. Não sei. Mas tudo bem. Eu sou forte como uma rocha da Patagônia, como dizia uma personagem que interpretei uma vez (sem óculos nem lentes). Mentira. Minha rocha é fina, quebra e tem um imenso vazio dentro. Vazio, não. Tem uma coisa mole, pastosa, enorme e amorfa, sem nome, ou com vários nomes. Quente e fria. Colorida e sem cor. Isso é o que eu sou. Acho que o medo nem é da cirurgia. É de que nada mude, com ou sem óculos. E eu tenho tanta esperança de que mude...

Talvez eu fique um tempinho sem vir aqui de novo. Mas agora eu tenho uma desculpa, vá! E da próxima vez, se tudo der certo, não vai ter lente entre meus olhos e a tela. Nem água. Espero.

3 comentários:

Arnaldo disse...

É uma delícia parar de usar os óculos. Fiz a cirurgia, depois de quase 30 anos usando aquelas porcarias. Hoje, estou livre deles, pelo menos pra ver o mundo. Continuo tendo que usar essa coisa pra ler e pra usar computador. Mas isso é por causa da idade. Isso não tem jeito.

Daniel disse...

Esse comentário não vai fazer diferença for now on, mas... eu sempre te achei bonita de óculos tb. Por sinal, acho que é uma coisa estranha de querer sempre o inverso - eu sempre achei que ficaria legar se usasse óculos (eu), mas nunca precisei, não tenho nadica de nada. E vc louca pra deixar de usar.

Daniel disse...

"Seu comentário foi salvo e será exibido após a aprovação do proprietário do blog."

Frescura do caralho. :)